
Roger, o “maradoninha” como carinhosamente era apelidado pela “torcida” do Fluminense, equipa que o exibiu pela primeira vez ao mundo do futebol, foi (e ainda hoje é) um dos maiores desperdícios que alguma vez o desporto rei registou.
Vi evoluir por esses relvados fora, na última quinzena de anos, alguns dos melhores executantes de sempre, jogadores que faziam da bola a sua confidente, tratando-a com afecto inesgotável, ligados por “laços de sangue”. Roger era um bom exemplo. Ele e a bola eram um só. Uma aliança inquebrável. Um pacto de não agressão constante. Ele protegia-a, ela oferecia-lhe o mundo. E Roger alcançou o céu, mesmo que por momentos.
Técnica dos pés à cabeça, futebol de rua personalizado pelo seu pé esquerdo miraculoso. Roger move-se em campo com a certeza de ter areia por debaixo dos pés. Brinca e brincava sobre ela constantemente, para azia dos seus treinadores, para delírio e êxtase da bancada. O íman que trazia junto à bota nunca foi encontrado, escondia-se e beijava a “redonda” cada vez que se tocavam. Magia pura em campo. Não penso duas vezes se tivesse de eleger os maiores artistas da bola. Artistas e não jogadores competitivos ao mais alto nível. Essa faceta é para os que encaram o futebol como uma profissão séria. Isso não era ele, não nasceu para correr e para trabalhar como os outros, terá pensado. Trocou tudo para se dedicar a aperfeiçoar o seu estreito relacionamento com a bola e não com o jogo, muito menos com os colegas. Tudo pela beleza do espectáculo. Tudo por mais um drible, mais um defesa “desmontado”, mais um remate fulminante. Tudo por amor à sua mais que tudo, aquela que o ajudou a chegar à Europa e provavelmente aquela que o cegou ao ponto de não ter evoluído os seus índices físicos, temperamentais e de entrega em campo. A bola numa atitude egoísta retirou-lhe o discernimento e uma carreira ficou para trás.
Hoje seriam poucos os magos do futebol que lhe poderiam ensinar algo mais. Mas Roger tomou a sua decisão. Sentenciou o seu trajecto futebolístico. Trocou as exigências incontornáveis do futebol europeu por mais um drible, mais um “nó cego”, mais um improviso, mais uma partida de futevolei na cidade maravilhosa. O pequeno génio tem hoje 30 anos e ajuda pontualmente o Flamengo, seu clube actual a conquistar (também pontualmente) os 3 pontos. Pelo meio muitas discórdias com os seus treinadores, com a direcção e com os aficionados do clube com mais adeptos no mundo. E tudo porque Roger morrerá sem se entregar ao jogo. Apenas e só…à bola.
Publicado por Eduardo Gonçalves 
Publicado por Eduardo Gonçalves 
Publicado por Stéphane Pires 