Veloso, geometricamente jogando
Com Miguel Veloso chega ao futebol português um novo conceito. O futebol geométrico teorizado por Paulo Sousa, Redondo, Guardiola ou Andrea Pirlo.

No passado sábado no jogo que opôs a Selecção portuguesa à formação do Azerbaijão, e que culminou com uma vitória relativamente pacífica por parte dos ”patrícios”, certamente, não lhe terá passado despercebida a fantástica exibição de Miguel Veloso.
Como está maduro o jovem “leão”. Ocupando o vértice mais recuado do triângulo do meio campo, servindo desse modo de bengala para a subida dos laterais (que em abono da verdade nem se registaram com a frequência necessária) actuando como autêntico escuteiro no centro do terreno, roubando o ouro ao bandido, entregando-o de imediato ora curto, nas linhas mais próximas, ora longo com régua e esquadro definindo com elegância os flanqueamentos por parte de Cristiano Ronaldo e Ricardo Quaresma.
Veloso tem aritmética nos pés. Com ele o futebol é sinónimo de números. De exactidão, de ciência. A calma estonteante com que aborda cada transposição defesa-ataque, quebrando o ritmo quando é necessário, mexendo na intensidade de jogo, ocupando o relvado de área a área, jogando sempre apoiado, deixando as fintas e os bailados para outros artistas, faz dele hoje, um caso sério de exportação do futebol português. E digo mais. Tivesse ele outra capacidade física, outra explosão para chegar como uma flecha ao último reduto contrário, quer tabelando, quer aparecendo à entrada da área para finalizar, e certamente neste momento já seria mais um ilustre “estrangeiro” na armada portuguesa.
No futebol actual o espaço para o trinco clássico tende a desaparecer em virtude da necessidade de se potencializar as capacidades dos centro-campistas, libertando posições no terreno. E Veloso, embora não sendo um trinco clássico, longe disso, ainda não tem verticalidade suficiente no seu jogo (fruto de uma condição física pouco abonatória), para se assumir como um “box to box”, um médio moderno e irreverente sem perder a geometria e a racionalidade de jogo que já caracterizam o seu futebol. Arrisco-me a dizer que uma estadia na Premier League é remédio santo para todos os males.