Bebeto, uma referência de infância

Bebeto, �dolo de infância

“…Bola metida lá no lado direito em profundidade, o cruzamento parte…cai nos pés de Bebeto, “a revienga”…”nión”…atira…golo!É golo, é golo, é golo é golo é golo! É disto que o meu povo gosta! A rede balançou com o génio brasileiro! Explodiu de alegria o adepto do Corunha!… Este até tem direito a uma musiquinha lá da minha terra…”

Incontornáveis e irrepetíveis as palavras de um apaixonado pela arte do futebol. Não disfarçava o acelerar do ritmo cardíaco quando a bola simpatizava com o jogador que carinhosamente a endossava para o fundo das redes. Jorge Perestrelo adornava como ninguém as eternas tardes de futebol da SIC em meados dos anos 90. Longe da Internet, dos canais por cabo e com a globalização ainda por se afirmar, a minha bíblia futebolística era “estudada” todas as tardes da semana, apadrinhada por aquela voz confidente. Em 90 minutos deliciava-me com partidas do campeonato espanhol. No “La Coruña” brilhava a minha referência de infância. O meu “case study”, a minha inspiração nos jardins de rua ou no desgastado alcatrão da escola. Bebeto, o “chorão” da selecção canarinha, alcunha recebida pelas inúmeras vezes que se comoveu com os seus próprios golos e com a emoção que só o futebol pode doar.

Nos gestos de Bebeto a alegria pelo jogo era indisfarçável. Tecnicamente irrepreensível, de remate fácil, espontâneo, quebrando todas as regras do futebol ciência, a “redondinha” no seu pé direito ganhava dimensões transcendentais, qualquer coisa de instintivo, intransmissível. Futebol de praia, de rua, futebol total, futebol de Bebeto.

Não sendo um ponta de lança mor, Bebeto respirava golos. Ao serviço do Flamengo, do Vasco da Gama, do Corunha ou do “escrete”, a aliança entre o pequeno génio e as redes da baliza manteve-se inalterável. No tetra campeonato do Brasil de Carlos Alberto Parreira, Bebeto carregou a sua selecção às costas, arrancando performances galácticas, marcando e assistindo, oferecendo de bandeja grande parte do protagonismo atribuído a Romário. Aliás julgo mesmo que se não fosse a aparição do “baixinho” carioca, e o nome de Bebeto atingiria outros patamares.

Em Espanha, jamais esquecerei uma última jornada decisiva que marcaria para a eternidade uma época de ouro para o Depor. Frente ao Valência, num empate que insistia em se manter intacto, um penalty ao cair do pano entra em cena, para abençoar o primeiro título para os galegos. Bebeto, o marcador de serviço, tremeu, fraquejou, e até hoje estou para entender como não assumiu a responsabilidade de avançar para a cobrança. O azar bateu à porta do Riazor, Miroslav Dukić, falhara, e entregara o título ao Barcelona.

Pese esse inexplicável infortúnio, para mim, Bebeto será sempre a referência de infância. Ainda hoje presto um certo culto à velhinha camisola de palmo e meio da selecção Brasileira, com o número 7 nas costas, ameaçando desvanecer-se. Por cima, o nome que me enchia de orgulho. O nome que me envaidecia quando dava uns pontapés na bola com gente do acaso. “Bebeto joga aqui! Passa Bebeto, passa!”. A bola rolava sem destino por entre canelas amassadas, e eu fitando o tempo e o espaço, “encarnando” no génio das tardes de Perestrelo, trazia Bebeto até aos colegas de rua. Bem ou mal fiz o que pude, mas Bebeto fez certamente bem mais.  Preencheu a minha rotina escolar e infantil, “assaltou” a minha memória.

 Golo de Bebeto, Perestrelo, liga o gira discos, só mais uma musiquinha da tua terra. Só mais uma.

Uma Resposta para “Bebeto, uma referência de infância”

  1. romildo Diz:

    muito feliz esta matéria pois todo aquele que reconheci a genialidade de bebeto é gênio também ,toque refinado inteligência e habilidade romário não seria nada sem bebeto

    parabéns pela matéria

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