
Rui Costa, 35 anos de vida e quase que outros tantos com a bola debaixo do braço. O sorriso de um menino que em tempos se exibia no cimento desgastasdo de um qualquer campo de futsal da Damaia, trespassou-se para a madura face de um homem realizado . As redes enrugadas dos velhos ringues eram cúmplices. Não podiam segurar por muito mais tempo a magia de quem nasceu para o futebol. O tempo embalou Rui numa caminhada progressiva rumo à sagrada camisola 10 do colosso A.C Milan. A confirmação de um ícone do futebol nacional. A unanimidade no parecer do seu jogo confirma-o. Hoje a velocidade atraiçoa-o, o ritmo desfalece à medida que o jogo se prolonga e intensifica. O perfume do seu futebol mantem-se quase que intacto. Contagia e despe de “clubite aguda” o fervoroso adepto adversário. A paixão do nº10 pelo relvado, pelo jogo, pela vitória exibe contornos de insensatez. Ver este Rui Costa em campo e o Rui Costa de 20 anos, aquele das minhas gravações empoeiradas, é quase que mais do mesmo, ouso dizer. Num flash descortinamos um denominador comum, transversal a toda a sua carreira. Paixão e regozijo por ser profissional de futebol, arrepiante.
A lei natural da vida força a regressão das nossas capacidades, diminui-nos física e mentalmente. Aos poucos vamos cedendo e cabe-nos a nós aceitar a lógica humana. No futebol, tal como na vida, nasce-se, vive-se e morre-se. Nada mais simples. Rui Costa caminha com naturalidade para o fim da linha. Nessa perspectiva seria razoável repensar as funções do “maestro” no esquema táctico de Camacho. O ritmo pausado, a vontade de jogar de frente para a baliza, o timing de decisão, tudo se conjuga a meu ver para que o pensador recue no terreno, actuando na primeira fase de construção de jogo, recebendo o esférico junto ao ultimo reduto, teleguiando o jogo benfiquista, fugindo do contacto físico e das acelerações propicias aos últimos 30 metros.
Com o avançar da idade muitos jogadores reformulam a sua concepção de jogo. Nomes como o de Zé Roberto ou Pirlo invadem-me a memória. O seu recuo em campo trouxe outra performance ás suas carreiras. Um “refresh” decisivo para a sua afirmação no contexto do futebol mundial. No caso do 10 benfiquista, não seria tanto assim, uma vez que nada terá a provar ao treinador de bancada. Contudo, pegando a partida pelas rédeas, esclarecendo tacticamente o jogo da equipa desde a saída de bola, os automatismos surgirão por instinto e trabalho, desde que encetados por quem tenha sensibilidade para o fazer. E quem melhor que Rui Costa para a referida missão? Será este certamente um dos problemas da desorganização do jogo encarnado. Desfazendo o duplo pivot Petit-Katsouranis, inoperante quando actuando nos mesmos metros de relvado, abrindo espaço a que Rodriguez se desamarre da linha, encurtando caminho até Cardozo, algumas lacunas na construção ofensiva do reino da águia seriam certamente dizimadas.
Janeiro 15, 2008 ás 2:51 am
O próprio maestro já expressou mais que uma vez que o melhor sitio para ele é precisamente esse. A questão é quem jogaria mais à frente? a qualidade escasseia, os tão propalados remendos de inverno tardam a chegar… enfim, é urgente alguém competente para dirigir o futebol do benfica.