
Há coisas que não entendo no futebol. Medito em busca de uma resposta para o insucesso da carreira de um jogador, com talento a escorrer por todos os poros do corpo, e nem sempre encontro a solução. Para quase todos há uma razão. Falta de profissionalismo, má gestão na hora de escolher o seu futuro, indisciplina, todas elas emergem como respostas óbvias. Para o brasileiro Felipe, não sei ao certo qual será a mais indicada. De qualquer das maneiras, ver este jogador passar ao lado de uma carreira europeia é das maiores lacunas da última década, no futebol do velho continente.
A maior parte dos comuns apreciadores de futebol, desconhecem os talentos que nascem na América do Sul, pelo menos enquanto se limitam a jogar por lá. É comum ouvir-se hoje que o brasileiro “x” ou o argentino “y”, que jogam no Calcio ou na PremierShip, são verdadeiros astros. Passaram para “o lado de cá” e como tal, merecem obter o certificado de qualidade dos relvados europeus. Ora com Felipe a historia foi outra.
Corriam os últimos anos da década de 90 e o Vasco da Gama tinha nas suas fileiras uma das melhores equipas que os meus olhos viram jogar. Futebol de ataque, criativo e rápido, ao nível das melhores equipas da Europa (como se veio a registar no Mundial de Clubes). Na lateral esquerda jogava um predestinado, o tal Felipe. Camisola 6 nas costas e uma compilação, plena de truques e fintas nos pés. “O” verdadeiro malabarista. A sua capacidade técnica era de tal ordem sobrenatural, que muitas equipas contrárias tinham indicações rígidas para que toda a ala direita marcasse o pequeno génio do Vasco. Nunca assistira a tamanha preocupação com o deslizar de Felipe em campo, afinal de contas era apenas um lateral esquerdo. Porém a multidão estava avisada. Descomplexado, Felipe arrancava para a glória impulsionado pela torcida. Um, dois, três…meia equipa para trás e Felipe na “cara do golo”. A metáfora do futebol desregrado carioca imbuída num par de chuteiras. A apoteose gerada em torno de si criou uma onde de protestos por todo o Brasil, reclamando a sua presença na selecção “canarinha”, no lugar de…Roberto Carlos, imagine-se. Nas épocas seguintes Felipe foi deslocado para o centro do terreno, (tal como tanto reclamara), pensando o jogo do colectivo, segurando a partida pelas suas rédeas. Não fazia sentido ter tanto potencial técnico amarrado lá atrás, dobrando os centrais ou subindo pelo flanco com cautela. Não era para Felipe esse papel, era contra natura.
No auge da sua carreira e em vias de se transferir para a Roma (como meio mundo já o esperava), Felipe vê as negociações complicarem-se, tendo o caso acabado na justiça. A porta da Europa fechara-se. Pensei que fosse apenas uma negociação falhada, e que mais cedo ou mais tarde Felipe teria a oportunidade de exibir o seu futebol na Europa. No entretanto jogou no Atlético de Mineiro e no Palmeiras. O tempo passou e esse dia não chegou. O melhor que conseguiu foi forçar uma transferência imprudente para o Galatasaray. Poucos meses depois, regressou inadaptado e carente do calor do Rio de Janeiro. Militou no Flamengo e depois no Fluminense. Em 2005 saiu para o Quatar atrás do oásis financeiro e por lá ficou. Aos 30 anos duvido que ainda vá a tempo de passear a sua arte pela Europa. Foi reprovado ou reprovou a dureza do “nosso” futebol. É o que me resta descodificar. De resto, posso afirmar que fui um predestinado também. Fui dos poucos europeus que viu Felipe jogar e o que vi foi do melhor que o desporto rei tem para dar. Emoção refinada, estética pitoresca. Dos melhores executantes desta arte. Ainda hoje, das poucas camisolas que tenho, uma delas é a de Felipe, a camisola do centenário Vascaíno.
Helton, Romário, Edmundo, Viola, Amaral, Juninho Pernambucano, Juninho Paulista ou Zé Maria, seus colegas naquela extenuante equipa do Vasco que o digam. Perdeu-se um entertainer nesta Europa táctica e rezingona.
Publicado por Eduardo Gonçalves
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