
“Não altero o modelo em função do adversário”. É este o busílis da questão, o paradigma a que Jorge Jesus se agarra e que melhor define o seu perfil. Na verdade, esse mesmo modelo, tem vindo a ser solidificado, sobretudo, desde o tempo de experimentação e maturação no tubo de ensaios do Restelo. Tem trabalhado metodicamente a raiz do seu 4-4-2 losango, o seu sistema táctico por excelência e as respectivas dinâmicas de movimentação, que o fazem emergir para o jogo. Discípulo do futebol atractivo, feroz, de ataque premeditado ás redes, o timoneiro de Braga mantém-se fiel aos seus princípios, defender bem para atacar melhor.
Em Braga mora um plantel homogéneo, recheado de potencial e de pelo menos duas opções para cada posição. Confesso que ambicioso como sou, por ver clubes de média expressão darem o grito do Ipiranga, para bem da competição interna, vejo nesta equipa gestão e estrutura para se assumir no panorama nacional, como alternativa válida ás tradicionais lides de campeonato.
Nas quatro linhas Jorge Jesus espraia a amplitude do seu losango, encurtando terreno defensiva e ofensivamente. Na baliza uma confirmação, Eduardo, muito provavelmente a maior certeza pós-Quim na selecção nacional. Nas laterais, João Pereira em claro crescimento futebolístico (apesar da imaturidade psíquica que ainda o atormenta) faz todo o corredor sempre a fundo. No outro flanco, Evaldo, mais físico, menos afoito com a bola, procura equilibrar a equipa posicionalmente. No eixo, reside um Rodriguez imbuído no espírito arcebispo. Combativo, lesto e forte nas alturas, alia-se a Moisés que mercê mais da vontade do que do engenho, lá vai ganhando o seu espaço.
No meio está a virtude, o carrossel ofensivo que embala a equipa e fomenta a filosofia do golo. O turbilhão de emoções sacudido pelos pés do trio que tem por missão jogar e fazer jogar. Com um único pivot defensivo na retaguarda, previsivelmente Frechaut ou Andrés Madrid, o meio-campo ganha asas e cava os pormenores que definem a diferença no marcador. Com Alan na meia direita, César Peixoto ou Matheus sobre a esquerda e o uruguaio Luís Aguiar como estratega puro, este Braga ganha contornos de malvadez ofensiva, lançando-se para o golo de cartucho cheio. Na conclusão avista-se Linz e Meyong com Paulo César apto a intrometer-se. O primeiro mais ponta-de-lança, o segundo mais “bom de bola”, móvel e dado ao choque, o terceiro mais rápido e letal. Há ainda Renteria, Vandinho, Stélvio, Wender ou Mossoró, peças de primeira linha que revestem o plantel com detalhes de equipa grande.
São estes pequenos traços que fazem com que siga de perto o escrutínio do treinador minhoto. Olhos postos na baliza do adversário, bola teleguiada de flanco a flanco, bola á flor da relva, bola no espaço vazio, bloco subido encostando o oponente ás cordas, bloco da autoria de Jorge Jesus. Domina os conceitos tácticos do jogo, aplica-lhes o cunho do seu teor psicológico e escolhe á pinça os intérpretes que o fazem rolar. Como ele próprio diz, não faz “nada de especial”, apenas “escolhe os melhores para cada posição”. O futebol na batuta de quem entende a sua pureza e a conserva. Um caso a seguir com atenção durante a Liga.
Publicado por Eduardo Gonçalves