Vitória de Setúbal – A dificuldade na construção de jogo

Janeiro 8, 2009

Daúto FaquiráDaúto Faquirá vive dias conturbados em Setúbal. O Vitória ocupa o 14ºposto, a um ponto da zona de despromoção e o conjunto vitoriano tarda em encontrar-se. O seu 4-2-3-1 não tem correspondido às exigências, a equipa nunca ganhou fora de portas e em casa já avolumou quanto derrotas em sete partidas. No ataque o saldo é revelador. Sete golos em treze encontros. Mora em Setúbal a equipa menos concretizadora da Liga Portuguesa.

Tendo como premissa inabalável, as competências técnico-tácticas, que provou num passado recente, possuir, Daúto tem-se esforçado por traduzir em campo as movimentações que desenha no papel. O Vitória espraia-se em campo com uma linha de quatro defensores à frente do renascido Bruno Vale ou de Pedro Alves. Janício e Cissokho, altos e fisicamente possantes procuram esticar o jogo da equipa pelas alas. Se o cabo-verdiano é hoje um jogador relativamente completo, Cissokho procura ainda fugir da timidez. Mostra alguma agressividade com bola e é certinho a fechar. No centro, Anderson trouxe mais velocidade ao eixo. Juntamente com Robson formam uma dupla de centrais credível que procura empurrar a equipa, forçando-a a jogar mais subida no terreno.

À frente dos centrais, na primeira fase de construção do jogo setubalense, a deficiente transição para o ataque compromete as etapas seguintes. A experiente dupla de pivots defensivos, formada por Sandro e Ricardo Chaves não possui aquele toque de bola que transmita segurança no passe ou no transporte, deixando o trio que actua à sua frente, desmembrado e desligado entre si. Sandro fecha bem, preenche bem os espaços mas é demasiado posicional. Por sua vez, Ricardo Chaves surge a seu lado, não trazendo algo que realmente complemente a identidade de Sandro. É mais vertical e procura “carrilar” o jogo até à linha seguinte, mas falta-lhe algo que não se lhe pode exigir. Pedir-lhe segurança e visão de jogo digna de um moderno pivot defensivo.

Mais à frente surge alguma criatividade. Bruno Gama com bola é o fantasista. Posicionalmente, o seu jogo flui da ala para o centro em repetidas diagonais. Não tem medo de ter bola e de errar. Sem bola perde-se nas deficientes transições defensivas que efectua, e deixa a sua faixa demasiado exposta. No flanco oposto tem surgido Elias. Mais voluntário e abnegado ao choque que Leandro Lima, menos poder de imprevisibilidade e capacidade de resolver no um para um. Mateus, o estratega pauta o jogo ofensivo. Tem bons pés e faz a equipa respirar quando lhe é concedido espaço. É porventura o único jogador da equipa capaz de ter bola, de segurar para esperar pelo apoio, de fazer crescer a equipa em campo, dando-lhe personalidade. Joga de cabeça levantada fazendo girar a equipa em seu redor.

Na frente, Daúto tem apostado em Laionel. Carente de opções que entendam as movimentações e a leitura de que vem de trás, Laionel tem sido o menos mau. Falta poder de fogo a este Vitória. Instinto fatal. Carrijo traz poder físico, segura bem a bola e impõe-se à marcação. Por outro lado é demasiado fixo para conectar a “ficha” do seu futebol à ligação que se encontra distante no meio campo. Saleiro não se impôs e a equipa está órfã de uma referência no ataque. Um mal que se estende a mais equipas na Liga.

O tempo passa e Daúto tenta retalhar a manta com as linhas que se tem cozido. Refazer o duplo pivot defensivo seria porventura uma opção, jogando apenas com um trinco, e fazendo recuar em campo Mateus para a primeira zona de construção, reformulando-o enquanto jogador, dando mais consistência à saída de bola do Vitória. O experiente Bruno Ribeiro poderia também trazer algo à equipa jogando por dentro no corredor esquerdo, dando condições a Cissokho, para que este desse mais profundidade ao seu flanco. Mas ninguém melhor que o treinador moçambicano para perceber as afinações tácticas que a equipa precisa.       


Será desta Jesualdo?

Dezembro 19, 2008

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O FC Porto ficou hoje a conhecer o adversário nos oitavos-de-final da presente edição da Liga dos Campeões – o estreante Atlético Madrid, de Simão, Maniche, Assunção e uns tantos mais (Aguero e Forlan à cabeça). Difícil? Sim. Superável? Claramente, se a máquina olear. Com Rodriguez, Lisandro e Hulk cada vez mais entrosados nas  movimentações, trocas e deambulações, uma verdadeira avalancha de ataque cairá por cima da defesa colchonera.

Ontem, no âmbito das comemorações natalícias do FC Porto, o professor Jesualdo, ainda antes de conhecer o sorteio desta manhã, veio a ‘terreiro’ dizer que a sua equipa é ainda muito inexperiente na Liga dos Campeões e, como tal, é arriscado almejar por uma longa campanha na competição. O técnico ressalvou, no entanto, que possui cinco ou seis jogadores com maturidade na Champions - Helton, Pedro Emanuel, Bruno Alves, Raúl Meireles, Lucho e Lisandro, essencialmente.

Lá no íntimo, Jesualdo acredita que desta feita, naquela que é a sua terceira presença na liga milionária, a passagem aos quartos-de-final será muito mais do que uma miragem. Depois de verem sonhos angustiosamente  gorados ante Chelsea (2006 – 2007) e Schalke 04 (2007 – 2008), nos oitavos-de-final, os tricampeões nacionais partem com dose de favoritismo perante um menos experiente Atlético Madrid. Mas, será Jesualdo capaz de afastar o fantasma das duas épocas anteriores, sobretudo a eliminação com o Shalke 04, um adversário teoricamente ao alcance dos portistas?

Esta eliminatória com o Atlético Madrid será mesmo o grande teste de Jesualdo Ferreira para renovar o período europeu do FC Porto pós-Mourinho. Foi com o Special One ao leme que os azuis e brancos ultrapassaram, pela última vez, os oitavos-de-final da Liga dos Campeões – deixaram para trás o Manchester United e só pararam com a taça na mão, em Gelsenkirchen, depois de baterem o Mónaco.

Recordemos o ‘onze’ titular que subiu ao relvado de Old Traford, para empatar (1-1) com o Man. United, e assim afastar a formação britânica nos oitavos-de-final da Champions 2003-2004. Guarda-redes: Vitor Baía; Defesas: Paulo Ferreira, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, Nuno Valente; Médios: Costinha, Maniche, Alenitchev e Deco; Avançados: Carlos Alberto e Benny McCarthy.

Façamos agora um esboço da possível equipa que o professor apresentará para enfrentar o Atlético, ressalvando as possíveis lesões ou variações de forma até  finais de Fevereiro. Guarda – redes: Helton; Defesas: Fucile, Rolando, Bruno Alves, Pedro Emanuel; Médios: Fernando, Raúl Meireles, Lucho e Rodriguez; Avançados: Lisando e Hulk.

Num próximo post, tentarei ver semelhanças e diferenças entre estas duas equipas do FC Porto, de Mourinho e Jesualdo.

 


Atlético de Madrid – Movimentando-se defensivamente em 4-4-2 clássico

Setembro 19, 2008

Gostei da exibição do Atlético Madrid neste seu regresso á elite dos campeões. Na estreia, coube-lhe a árdua tarefa de se impor num terreno complicadíssimo para quem o visita, o Philips Stadium.

 

O mexicano Javier Aguirre pelo que tenho visto, mantém-se fiel a um 4-4-2 puro de asas bem abertas, digamos que a variante base deste modelo de jogo. Muito se discute se é possível nos dias que correm, (onde as equipas cada vez mais apetrecham o meio-campo com varias unidades na tentativa de segurar as rédeas do jogo), que uma formação se apresente apenas com dois homens no centro das operações. A chave para derrubar o classicismo deste esquema táctico reside a meu ver, em duas possíveis nuances. Os dois médios centro têm de ser tacticamente exemplares, e fisicamente disponíveis para aguentar a intensidade e o volume de jogo, sendo que um deles terá de se posicionar mais próximo da linha defensiva. E os alas tem de se voluntariar constantemente na ocupação de espaços quer no corredor interior, quer no extenuante auxilio aos seus laterais. Com esta dinâmica de movimentação defensiva, o quarteto encurta espaços, fecha linhas de passe e resguarda o ultimo sector.

 

Ora não é fácil encontrar alas que o saibam fazer, e acima de tudo que estejam dispostos a tanto sacrifício. Talvez por isso Simão tenha arrumado com a concorrência no Atlético de Madrid. Não é tão virtuoso e malabarista como um Reyes ou até mesmo um Cléber Santana mas é muito mais do que isso. É garantia que é o primeiro defensor do seu flanco e o primeiro a jogar para a equipa. Parte para o individualismo como recurso e por isso se vem afirmando na extrema-esquerda. Na direita fecha Maxi Rodriguez ou Luís Garcia. No meio está o pêndulo Assunção, na “cabeça da área” quando preciso, e o fulgor de Maniche que ora pressiona atrás, ora aparece no espaço vazio para receber mais á frente, dando profundidade na transição ofensiva.

 

Atrás um quarteto denso comandado por Léo Franco : António Lopez e Luís Perea nos corredores, Ujfalusi e Heitinga como pilares no eixo. Lá na frente Aguero e Folan, uma dupla fortíssima.

 

É possível jogar em 4-4-2 clássico. O procurado sucesso advém da dinâmica que os seus intérpretes lhe dão, e o Atleti é um bom exemplo disso, como já foi há algum tempo o Valência de Cúper ou de Benitez.


SP. Braga e Jorge Jesus – a filosofia de um golo

Setembro 5, 2008

“Não altero o modelo em função do adversário”. É este o busílis da questão, o paradigma a que Jorge Jesus se agarra e que melhor define o seu perfil. Na verdade, esse mesmo modelo, tem vindo a ser solidificado, sobretudo, desde o tempo de experimentação e maturação no tubo de ensaios do Restelo. Tem trabalhado metodicamente a raiz do seu 4-4-2 losango, o seu sistema táctico por excelência e as respectivas dinâmicas de movimentação, que o fazem emergir para o jogo. Discípulo do futebol atractivo, feroz, de ataque premeditado ás redes, o timoneiro de Braga mantém-se fiel aos seus princípios, defender bem para atacar melhor.

 

Em Braga mora um plantel homogéneo, recheado de potencial e de pelo menos duas opções para cada posição. Confesso que ambicioso como sou, por ver clubes de média expressão darem o grito do Ipiranga, para bem da competição interna, vejo nesta equipa gestão e estrutura para se assumir no panorama nacional, como alternativa válida ás tradicionais lides de campeonato.

 

Nas quatro linhas Jorge Jesus espraia a amplitude do seu losango, encurtando terreno defensiva e ofensivamente. Na baliza uma confirmação, Eduardo, muito provavelmente a maior certeza pós-Quim na selecção nacional. Nas laterais, João Pereira em claro crescimento futebolístico (apesar da imaturidade psíquica que ainda o atormenta) faz todo o corredor sempre a fundo. No outro flanco, Evaldo, mais físico, menos afoito com a bola, procura equilibrar a equipa posicionalmente. No eixo, reside um Rodriguez imbuído no espírito arcebispo. Combativo, lesto e forte nas alturas, alia-se a Moisés que mercê mais da vontade do que do engenho, lá vai ganhando o seu espaço. 

 

No meio está a virtude, o carrossel ofensivo que embala a equipa e fomenta a filosofia do golo. O turbilhão de emoções sacudido pelos pés do trio que tem por missão jogar e fazer jogar. Com um único pivot defensivo na retaguarda, previsivelmente Frechaut ou Andrés Madrid, o meio-campo ganha asas e cava os pormenores que definem a diferença no marcador. Com Alan na meia direita, César Peixoto ou Matheus sobre a esquerda e o uruguaio Luís Aguiar como estratega puro, este Braga ganha contornos de malvadez ofensiva, lançando-se para o golo de cartucho cheio. Na conclusão avista-se Linz e Meyong com Paulo César apto a intrometer-se. O primeiro mais ponta-de-lança, o segundo mais “bom de bola”, móvel e dado ao choque, o terceiro mais rápido e letal. Há ainda Renteria, Vandinho, Stélvio, Wender ou Mossoró, peças de primeira linha que revestem o plantel com detalhes de equipa grande.

 

São estes pequenos traços que fazem com que siga de perto o escrutínio do treinador minhoto. Olhos postos na baliza do adversário, bola teleguiada de flanco a flanco, bola á flor da relva, bola no espaço vazio, bloco subido encostando o oponente ás cordas, bloco da autoria de Jorge Jesus. Domina os conceitos tácticos do jogo, aplica-lhes o cunho do seu teor psicológico e escolhe á pinça os intérpretes que o fazem rolar. Como ele próprio diz, não faz “nada de especial”, apenas “escolhe os melhores para cada posição”. O futebol na batuta de quem entende a sua pureza e a conserva. Um caso a seguir com atenção durante a Liga.