Onde pára a squadra azzurra?

Junho 12, 2008

Sofrível. Confrangedora.  Irreconhecível. Adjectivos que definem a estreia da Itália no Euro 2008. Quereria Donadoni repetir a receita que a squadra azzurra utilizara perante uma outra Holanda – igualmente estética, mas menos pragmática – na meia-final do Euro 2000, onde os transalpinos resguardaram-se no último terço do terreno, jogando meramente no erro do adversário? Nesse embate,  os actuais campeões do mundo acabaram por ganhar nas grandes penalidades. Aqui não havia penaltys, mas talvez o empate até não fosse mau de digerir para Buffon, Pirlo, Toni & Companhia.

Quando pensamos na squadra azzurra, vem-nos imediatamente à cabeça a ideia de um forte revestido de uma densa muralha formada de peões azuis. Baresi, Madini, Canavarro, Panucci, Nesta, Pessotto, Zambrotta na linha defensiva; Albertini, Dino Baggio, Christian Zanetti, Di Biaggio, Pirlo, Gattuso, Ambrosini, Perrotta na intermediária. Todos eles referências e intérpretes na perfeição do tão proclamado e contestado cattenaccio. Roberto Baggio, Totti ou Del Piero davam a porção mágica; Singori, Vieri ou Inzaghi faziam chegar o gélido veneno às balizas contrárias. Mas onde pára a squadra azzurra?

Panucci, Zambrotta, Pirlo, Ambrosini, Gattuso e Del Piero - este apenas na parte final da batalha - lá estiveram, na passada segunda-feira, vergados à humilhação imposta pela renovada ‘laranja mecânica’. Tristes, apáticos e carregados de um cattenaccio demasiado pesado de transportar como estigma. Perfeitamente sabedores e conscientes de que a famosa estratégia não se faz sem artistas de porção mágica, Pirlo e os outros foram esperando que o velho e o recente passado pairassem por um qualquer miraculoso instante. Mas sem Baggio, Totti ou o Del Piero, os holandeses apenas apressaram o tempo. Numa equipa titular com apenas três jogadores de cariz ofensivo – não que isso fosse algo de novo nas selecções italianas -, onde estava o artista? Di Natale? Não é, nem será, certamente, ele que terá a varinha de condão. Camoranesi? Decididamente, não. E Toni? A esse pede-se-lhe que liberte o veneno. Mas, ainda assim, quem não tem saudades do ‘letal’ Inzaghi ou do possante Vieri?

Artista? Só Pirlo. Mas o pivot milanês, preso a marcações, raras as vezes conseguiu chegar às imediações da área contrária para executar, como ele sabe na perfeição, o último passe – à semelhança daquele ‘toque’ de Iniesta para o segundo golo da Espanha e de Villa na vitória de nuestros hermanos contra a Rússia.

O que fazer então? Restará a Donadoni resgatar o ‘veterano’ Del Piero para o onze inicial, em detrimento do inconsistente Camoranesi. Juntar o criativo da vecchia signora a Di Natale, a fim de dar apoio, nas costas, ao desamparado Toni. E com a saída de Camoranesi, exigir aos laterais que subam mais e criem desequilíbrios no meio-campo adversário. De um lado Zambrotta, do outro Grosso. Pannuci já não pertence a este forte.

Sem os míticos Cannavarro e Nesta, caberá, inevitavelmente, ao malfadado Matterazi liderar a defensiva, claro está, com a voz de comando e a presença intimidadora de Buffon atrás. 

Devolvam Del Piero à squadra. Ele tem a porção mágica. 

 

 


Equipa UEFA 2007

Dezembro 19, 2007

É do conhecimento geral que decorre já há alguns dias a votação no site da Uefa, para a eleição do “11 do ano” e do seu respectivo treinador. Confesso que entre os 60 nomeados, as escolhas surgem de um modo deveras previsível, arriscando-me a dizer que exceptuando káká ou mesmo Cristiano Ronaldo, ninguém porventura terá realizado um 2007 plenamente satisfatório. Por outro lado constam nomes na lista que me deixam abismado. Aguardo impacientemente que me explicitem os critérios para a sua convocatória em detrimento de outros que incompreensivelmente não pontificam nas opções.   

Polémicas à parte, aqui fica “o onze”, que na minha opinião, melhor performance obteve este ano.

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Guarda-Redes: Edwin Van der Sar. (De todas as opções parece-me a mais ajustada. O holandês de registo “low profile”, não encanta pela excentricidade que muitas vezes se clama na sua posição, mas assegura a tranquilidade necessária à defensiva do Manchester. Em 2007 foi pedra fundamental no reerguer do United rumo ao titulo. Esta época continua a exibir-se a um excelente nível. É a prova que uma carreira de sucesso se faz com perseverança, mesmo quando se passam épocas a fio na sombra, longe dos grandes palcos.)

Defesa-direito: Javier Zanetti (Reflecti entre Daniel Alves e o argentino. O primeiro confirmou o seu elevado potencial, acompanhando toda a ascensão do Sevilha, seria uma boa escolha. Mas penso que está na hora de atribuir a Zanetti o titulo individual que persegue há anos. É daqueles casos de vitalidade arrepiante. Sempre no mesmo estilo, na mesma toada, veloz, combativo, intenso, “um osso duro de roer” a atacar e a defender. É actualmente o atleta argentino com mais internacionalizações, e ninguém mais do que ele, merecia o sucesso no Inter de Milão. É a minha escolha)

Defesas-centrais: Rio Ferdinand (Pedra basilar na estrutura defensiva dos “red devils”, foi o comandante que Alex Ferguson precisava de encontrar em campo, na conquista do último campeonato. A sua voz de comando, põe em alerta o ultimo reduto do United. É rápido, tem elevado poder de choque, joga simples e no jogo aéreo é fortíssimo nas duas áreas. Fecha 2007 tal e qual como começou, na liderança da equipa de Cristiano Ronaldo.)  

Paolo Maldini (Seria lógico e legitimo escolher Ricardo Carvalho ou Nesta que estiveram muito bem, mas a minha escolha recai neste “dinossauro” do futebol moderno. Não sei o que escrever, os adjectivos esfumam-se quando me lembro da carreira deste senhor, porventura o maior ícone defensivo na ultima vintena de anos. Em 2007 e pelo 23ºano consecutivo envergou a camisola do Milan e carimbou mais uma conquista da “Champions League” sendo eleito o melhor defesa da prova. Individualmente não terá já as capacidades de outros centrais de renome, mas a força, a mística e a experiencia que empresta aos “rossoneri”, embalam a minha escolha. Um prémio de carreira, mais um.)

Defesa-esquerdo: Eric Abidal (Após a afirmação do seu futebol no Lyon, o francês consolidou o seu estatuto no Barcelona e caminha lentamente para os patamares exibicionais que o notabilizaram em França. É rápido, não evita o confronto com o oponente directo, tem um bom pé esquerdo, e é equilibrado em termos ofensivos, resguardando o flanco sempre que necessário. Um valor seguro do futebol mundial.)

Medio-Direito: Cristiano Ronaldo (Comentários para que? Este miúdo nasceu para o que faz, arrasa os adversários, põe ao rubro as bancadas, agita os corações. Em 2007 selou mais um ano de ouro, marcando golos decisivos, galopando por todo o terreno, ratificando o conceito de futebol total. A par de Káká tem tudo para ser o melhor do mundo durante alguns anos.)

Medio-Centro: Andrea Pirlo (Um dos jogadores mais finos e requintados do futebol mundial. O exemplo cabal de que não é necessário correr mais do que o necessário para estar em todo o lado. Pirlo só sabe jogar bem, e fá-lo com um critério inigualável. Magistral no passe, certeiro no remate, despido de extravagância, Pirlo “cabe” em qualquer equipa deste planeta.

Medio-Ofensivo: Káká (O melhor jogador do mundo. Inquestionávelmente. A regularidade exibicional do brasileiro não está ao alcance dos terrestres. É sempre o mais rápido a chegar a bola e a conduzi-la, “atropela” e “desmonta” qualquer adversário, dos seus pés urgem tiros de canhão, um verdadeiro atleta. A arte acorda, aninha-se e adormece aos pés de Káká. O samba ao serviço do colectivo do Milan.

Medio-Esquerdo: Clarence Seedorf (Um predestinado à moda do vinho do porto. À medida que envelhece, vai aprimorando os seus dotes. É fortíssimo no choque directo, joga e faz jogar, surge como uma flecha envenenada à entrada da área para desfeitear as redes adversárias. A cultura do seu jogo e o modo como lê cada transição ofensiva, revelam a sensibilidade que possui na decisão de entregar o esférico. Um profissional por excelência que em 2007 confirmou tudo o que se esperava dele. Um órgão vital do campeão europeu.

Avançados: Kanouté: (Um ano para mais tarde recordar. Foi o abono de família que o Sevilha precisava para alcançar a glória novamente na Taça Uefa e a estabilidade competitiva no campeonato. Conquistas e respeito por essa Europa fora, tudo com a assinatura do ponta de lança do Mali. Um verdadeiro manual de como se actuar nos últimos metros de terreno. Não vacila na hora da concretização. Pelo ar, pelo chão, de primeira ou em drible, Kanouté conquistou a Europa em 2007.)

Didier Drogba: (Na minha opinião o melhor ponta de lança da actualidade no futebol mundial. Um professor a jogar de costas para a baliza, protege a bola como poucos, esmaga a concorrência na disputa de bolas aéreas, nunca dá um lance por perdido, é ágil, precipita o pensamento actuando um décimo antes da previsão, fuzila a baliza sem autorização, de qualquer ponto do relvado. O modelo de inspiração para todos os aspirantes a goleadores. A continuar com esta performance sujeita-se a ter de puxar de uma cadeira, e sentar-se confortavelmente, à espera que o derrubem do onze da Europa.)

Treinador: Ancelotti (Escolha muito complicada. Mas o trunfo de Ancelloti falou mais alto na hora da decisão. E que trunfo. Em 2007 conquistou a “Champions” batendo o Liverpool, e pouco depois amealhou a Super Taça Europeia, desta feita impondo-se frente ao Sevilha. De estilo conservador, prático, onde a cautela é a sua melhor companhia, Ancelotti orquestrou um grupo compacto e homogéneo, à sua imagem. O A.C Milan subverte a nova cultura do futebol de alto rendimento que dita o afastamento dos trintões. Em San Siro a historia é outra, o treinador também. O núcleo da equipa faz-se de experiencia, sabedoria e muitos quilómetros de futebol. A irreverência inibe-se em detrimento do trivial, a vitória.  


Belenenses, o “carrossel” de Jesus

Dezembro 18, 2007

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Jorge Jesus parece ter encontrado em Belém a estabilidade que precisava para transcrever do bloco de notas para o relvado, a teorização do seu futebol, que muitas vezes definhara em projectos anteriores, vítima da falta de tempo, que o tempo não sabe dar, e porque não, de uma maturidade ainda “adolescente” e precoce.

 

A vida guarda muitas vezes o melhor para perto do fim. Jesus ainda está longe do fim. Mas os erros cometidos no passado, os desaires e as opções erradas, dotaram o líder do Restelo de maior capacidade analítica e poder de decisão. Com base num método quase que indutivo-experimental, de constante procura e eliminação do erro, Jesus chega a Belém com o caderno passado a limpo, folhas esquematizadas e sucintas, clareza de ideias, a vertente táctica do jogo no primeiro capítulo. Eis o manual do comandante da Cruz de Cristo, que reconciliou o clube com os adeptos, ressuscitou a paixão pelo futebol, há muito petrificada, trouxe-lhe identidade, impulsionou-o para a primeira metade da tabela. 

 

Hoje, o Belenenses dentro de campo é a personalização teórico-prática dos mandamentos de Jesus. Defender bem anulando as movimentações chave do adversário, baixando a linha do meio campo sem a posse de bola, dando cobertura ao último reduto, mantendo a defesa profunda; Executar a transição ofensiva o quanto antes, e paradoxalmente sem queimar processos, passando a “obra” pelos “artesãos” do centro do terreno, entregando as alas quase que exclusivamente aos laterais; Pressionar o adversário na primeira fase de construção de jogo, funcionando os homens mais adiantados como os primeiros escudos da torre de Belém.

 

Na baliza, Costinha é a primeira opção, apesar da sombra do sempre útil Marco Gonçalves. O experiente guarda-redes português atravessa um bom período na sua carreira e é uma das chaves da equipa.

 

Na defesa um quarteto base, Cândido Costa (com Amaral a meias), Rolando, Hugo Alcântara e Rodrigo Alvim. Os laterais (Cândido e Alvim) dão largura ao jogo da equipa. Ambos sobem muito bem no flanco, alternadamente, não descompensado o sector mais recuado. Se Cândido Costa em termos atacantes é um precioso auxilio quando ganha a linha, Rodrigo Alvim é um autentico todo o terreno, esgotando as energias que dispõe em desenfreadas acelerações “coast to coast” sem grandes malabarismos mais em força do que em técnica, nunca virando a cara à luta. Rolando e Hugo Alcântara, centrais posicionais, fortes no jogo aéreo, impõem-se pelo físico, e resguardam-se da falta de volocidade de que padecem, encurtando as distancias para a sua baliza.

 

No meio-campo, espaço para o carrossel de Jesus. Os equilíbrios são mantidos com Gómez mais recuado, sendo directamente coadjuvado por Ruben Amorim, os operários de serviço. Gómez, contido em termos ofensivos, espelha um futebol racional, de boa ocupação de espaços, procurando libertar a bola sempre jogável, não arriscando passes de ruptura. É a balança da equipa. Ruben Amorim, a engrenagem do carrossel, actua um pouco mais liberto oscilando horizontalmente entre as proximidades dos flancos, sendo o primeiro verdadeiro pensador da equipa. Da sua área de jurisdição sai a transição para o ataque.  Silas e José Pedro, os cérebros da equipa. O primeiro jogando de dentro para fora, ou municiando as acelerações de Roncatto e de Welton nas costas da defesa contrária. José Pedro, pé esquerdo refinadíssimo, actua descaindo nos flancos, procurando libertar-se do turbilhão de oponentes que se acumula no centro, abrindo uma brecha para os seus tiros fulminantes, “embrulhando” com requinte assistências, ou inventando espaços para colocar os “matadadores” de serviço na “cara do golo”. Hugo Leal e novamente Cândido Costa completam o lote de principais opções para o meio-campo.

 

Na linha da frente, Roncatto e Welton, a artilharia da equipa. A esperança do golo. Rapidez de execução, desinibição na hora de assumir a responsabilidade, a pincelada de tom colorido na rigidez táctica de Jesus. João Paulo complementa-os, traz pujança física e presença lá na frente. Uma alternativa à dupla.


A minha Equipa UEFA 2007: de Van der Sar a Inzaghi, passando por Carvalho, Pirlo ou Seedorf

Dezembro 15, 2007

Está oficialmente aberta, desde quarta-feira, 12 de Dezembro, a votação on-line  para a Equipa UEFA 2007. Para escolher 11 eleitos e o respectivo treinador terá de aceder ao site oficial da UEFA. Entre os 60 futebolistas nomeados, figuram os nomes dos portugueses Cristiano Ronaldo, Ricardo Carvalho e Ricardo Quaresma. A grande surpresa é a ausência de José Morinho no lote dos cinco técnicos propostos a votação. Recorde-se que o special one  foi o treinador escolhido, pelos fans,  em 2003, 2004 e 2005, perdendo, de forma completamente incompreensível, para Arsène Wenger, no ano transacto.

Eis então a minha escolha de 2007:

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Guarda-redes: Edwin Van Der Sar (É a prova de que não há idade para se ser um grande guarda-redes. O holandês veio trazer a segurança que faltava à defensiva do United. Depois do apogeu no Ajax, a segunda vida em Manchester)

Defesa-direito: Massimo Oddo (Está longe de primar pela técnica apurada ou pela elegância. Forte, alto, duro, experiente, à imagem da sua equipa, o internacional italiano substitui a grande altura o pré-reformado Cafú no conjunto milanês)

Defesas-centrais: Ricardo Carvalho (Mais uma grande época ao serviço do Chelsea.  O central mais completo e regular de há alguns anos a esta parte, desde o Porto de Mourinho)  e Alessandro Nesta (O grande pilar na defensiva do Milan. Duro, mas com classe e elegância. Um ícone do futebol transalpino da última década)

Defesa-esquerdo: Eric Abidal (Com a ida para o colosso Barcelona ainda não atingiu o nível exibicional alcançado ao serviço do Lyon, onde se notabilizou. Forte, rápido. Personifica na perfeição o lateral moderno)

Médio-direito: Cristiano Ronaldo (O melhor extremo do futebol mundial. Mas Ronaldo é mais do que isso. Organiza jogo e marca, muitas vezes num estilo de verdadeiro ponta-de-lança. Salvo alguma imprevisibilidade, sempre possível no futebol, o internacional português terá lugar cativo neste team durante os próximos anos)

Médio-centro: Andrea Pirlo (O operário refinado. A estética ao serviço do colectivo. O trinco moderno, com precisão no passe e colocação no remate invulgares. Seria a minha escolha para melhor futebolista do Mundo em 2006 e 2007)

Médio-ofensivo: Káká (O dançarino de ballet com uma bola nos pés. Elegância, velocidade, inteligência, timing de decisão. O artista sempre imbuído no espírito da equipa milanesa)

Médio-esquerdo: Clarence Seedorf (Atingiu a fase da suprema maturidade. Concilia força, velocidade e inteligência. Com uma visão de jogo excepcional, gerindo muito bem os ritmos de jogo, é o modelo perfeito de médio interior para jogar num sistema de losango)

Avançados: Didier Drogba (Faz uso do seu poder físico e capacidade de choque para ganhar bolas e posições para fazer golo. Portador de enorme potência e colocação no remate, o costa-marfinense é hoje o avançado mais constante, em eficácia,  do Mundo)  e Filippo Inzaghi (Sem dúvida, o mais mortífero dos mortíferos avançados do planeta. Pippo é sinónimo de golo. Sempre no limite do fora-de-jogo, ao italiano basta-lhe uma brecha para facturar. Káká, Pirlo e Seedorf servem-no de bandeja e ele brinda com golos)

Treinador: Alex Ferguson (Sem um plantel vasto em qualidade, foi campeão inglês, à frente do Chelsea de Mourinho, e na Champions só baqueou na meia-final, frente ao Milan)