
Quando um treinador chega a um determinado clube ou selecção para substituir um antecessor com mais de cinco anos ininterruptos de casa, terá obrigatoriamente de trazer e impor um estilo próprio, que rompa com as ideias anteriores. Carlos Queiroz, conhecedor do cunho de Luiz Felipe Scolari na cultura da selecção nacional, rápido se apressou em mostrar que o tempo era de ruptura com as escolhas, hábitos, tiques e feitios do brasileiro.
Queiroz começou por mexer na faceta mais mediática de uma qualquer selecção nacional: a escolha dos jogadores, nas sempre esperadas e contestadas convocatórias. Logo na nomeação dos intérpretes para o particular com as Ilhas Feroé, o professor livrou-se do ‘fardo’ Ricardo e ‘esqueceu-se’ do intocável Petit. Por outro lado, chamou o guardião Eduardo – jogador que Scolari prescindiu no Europeu apenas por uma questão de sobranceria perante a ténue pressão dos media -, lembrou-se de Antunes, Duda, Manuel Fernandes e Danny – este último Scolari não deveria conhecer, pois replicou sistematicamente que Portugal não tinha substituto para Deco, apresentando-se, desta forma, com um único playmaker no Euro 2008.
Segurar Paulo Ferreira, enquanto afasta Nuno Gomes
Com esta primeira convocatória, Queiroz afastou pesos-pesados do ’sargentão’ e, ao mesmo tempo, trouxe sangue novo à equipa das quinas, passando a mensagem de ser um ‘promotor’ nato da cultura de mérito: independentemente do nome, quem joga e fá-lo bem no seu clube pode ser chamado. Claro que há excepções, a mais incompreensível é a opção sistemática em Paulo Ferreira para defesa-esquerdo, após os dissabores do último Campeonato da Europa. Mas será o lateral do Chelsea um escudo que Queiroz terá para se defender da acusação de ruptura com a ’era Scolari’, caso a campanha para África do Sul não seja bem sucedida? Muito provavelmente. Até porque para aquela posição ainda não surge um nome unanimemente aclamado por media e adeptos.
E, enquanto segura Paulo Ferreira, ganha espaço para se livrar de outra referência do íntimo grupo ’scolarista’: Nuno Gomes. A convocatória para o Brasil parece-me um indício forte de que o benfiquista só voltará à selecção em caso de enorme penúria de outros avançados. O problema é que, aqui, Queiroz não tem abundantes opções. Além de Almeida, sobra Postiga (outro ‘menino’ de Scolari), isto se o professor se guiar pela cultura de mérito, pelo desempenho nos respectivos clubes. Djaló, Makukula e Vaz Tê pouco ou nada jogam nas suas equipas. Sempre poderá ser audacioso e trazer Edinho, do AEK. Aguardemos. Outra opção para descartar Nuno Gomes, seria, claro, convocar o naturalizado Liedson. Não acredito. Se o fizesse deitava por água abaixo o seu estilo de ruptura scolariana.
Contornar em vez de afrontar os media
Mas, para lá das escolhas dos jogadores, Queiroz tem-se demarcado do actual técnico do Chelsea em várias acções do quotidiano de um seleccionador. Além das benéficas idas aos jogos, sentando-se cordialmente ao lado de Pinto da Costa ou Luis Filipe Vieira (para breve estará marcado um lugar ao lado de Soares Franco), Queiroz tem sabido gerir bem a comunicação. Acabou com as conferências de imprensa aquando da convocatória, remetendo para o site da FPF os nomes dos eleitos, bem como, ultimamente, imagens, também da FPF, que documentam justificações da escolha de um ou outro jogador. Se estivesse no papel do jornalista desportivo, acharia absurda esta opção. Enquanto assessor de comunicação, vejo como inteligente esta atitude de tentar diminuir ao máximo o burburinho logo após as convocatórias. Para compensar os media e os adeptos, Queiroz alargou os momentos de comunicação, de jogadores e técnicos, durante cada operação da equipa nacional. Muito bem. É nessa altura que mais interessa ouvir e debater o tema selecção.
Publicado por Stéphane Pires 
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Publicado por Eduardo Gonçalves 