Luís Aguiar – querer, saber e poder

Março 5, 2009

 

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Luís Bernardo Aguiar Burgos, 23 anos, 1.83m, 81 kg. A mais pura irreverência uruguaia ao serviço do colectivo do Sporting de Braga.

 

Olhando para o plantel de Jorge Jesus, encontro praticamente sempre duas opções para cada posição no terreno. O ‘praticamente’ esbarra na posição 10, aos pés de Luís Aguiar. Quando está bem, envolve os ‘arcebispos’ num vendaval arrepiante de bom futebol. Quando não pode dar o seu contributo, os minhotos perdem discernimento na hora de pensar o jogo ofensivo da equipa. O uruguaio veste o 22 mas tem alma de 10. É um criativo sóbrio diria. Organiza sobre o centro de terreno, mas cai facilmente sobre as faixas tirando partido do facto de ser ambidestro. Nesse registo, diria que é provavelmente, neste momento, o centrocampista com o par de chuteiras mais ‘equilibrado’ da Liga Sagres. Tem um pontapé fortíssimo, joga de cabeça levantada, executa rápido e apresenta uma condição física que lhe permite recuperar na ocupação do seu espaço defensivo. Custa-me olhar para a selecção uruguaia e não encontrar o nome de Aguiar entre os ‘efectivos’. E que bem servido ficaria o seu pais. Forlan agradeceria.

 

Nós por cá agradecemos as ‘bombas’ do meio da rua, e a classe no jogar e fazer jogar. Uma das figuras da Liga.      

 

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Cícero e Santana Carlos – a obrigação de encontrar o golo

Janeiro 15, 2009

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Nos mandamentos do futebol, ordena-se que a construção da equipa surja de trás para a frente. Defender bem para atacar melhor. Destruir, segurar, subir saindo a jogar. Avançar para o golo, a única certeza do futebol. Depois? Correr para o abraço, erguer a bancada, soltar a loucura. Na procura desse pressuposto religioso estariam Roberto ou Jean Coral do Vitória de Guimarães. Lutam, desdobram-se, deixam a pele em campo mas o golo vira-lhes as costas a cada investida às redes. Não basta parecer matador, é preciso sê-lo de facto. E um clube com a dimensão do Vitória não pode dar-se ao luxo de se divorciar do golo. De viver de aparências.

Seguem-se Cícero e Santana Carlos na procura do golo. O primeiro é forte, explosivo e tecnicista q.b. Vai trazer mobilidade à equipa e capacidade de criar jogo ofensivo. Contudo não creio que Cajuda altere a estrutura táctica que explana a sua equipa em campo. O Vitória joga para um único ponta de lança. Duvido que Cícero se encaixe nesse papel solitário. Seria fugir aos seus princípios de jogo expondo-o em demasia na difícil relação com o golo.

Santana Carlos, angolano de 25 anos proveniente do Petro de Luanda, respirará seguramente melhor que Cícero dentro da área. São os números que o dizem. Na última época no Girabola, Santana fez 20 golos que ajudaram o Petro de Luanda de Bernardino Pedroto a conquistar o 14º Campeonato Nacional. Dir-me-ão que os níveis de intensidade e a qualidade da competição não são comparáveis aos ritmos europeus. Eu remeto-me para as declarações de Klaas-Jan Huntelaar aquando da sua chegada a Madrid – “Quem marca numa Liga, marca em qualquer lado”. Não poderia estar mais de acordo. Quem tem feeling para o golo, tem-no em qualquer campo.

Duas filosofias distintas na abordagem ao golo. Elaborando-o no primeiro caso. Selando-o no segundo.

 


Nenê, protótipo do avançado moderno

Janeiro 8, 2009

nene5De perfeito desconhecido a revelação da Liga Sagres foi um passo. Treze jornadas depois, Anderson Miguel da Silva – Nenê, na praça futebolística –  parece já ter ascendido ao patamar de ‘confirmação’, assumindo-se como um dos mais letais avançados no primeiro escalão do futebol nacional. Na Liga, ao serviço do Nacional da Madeira, o brasileiro, oriundo do Ipatinga, já apontou sete golos, tendo participado em 12 dos 13 jogos já disputados – esteve ausente na última jornada, onde os madeirenses perderam com o Porto, por 4-2, na Choupana.

Detentor da vice-liderança na tabela dos melhores marcadores do campeonato nacional, Nenê assume-se como um dos grandes favoritos à conquista da Bola de Prata. Atendendo à lesão prolongada do ‘artilheiro-líder’ William – o avançado do Paços de Ferreira, que contabiliza oito golos, enfrenta uma paragem de meses – o goleador do Nacional terá de bater-se com os consagrados Wesley, Meyong, Liedson, Cardozo ou Lisandro. Mas, pelo que já mostrou neste primeiro terço da liga, acredito que Nenê poderá levantar o galardão.

Recorro aos seus dois golos na vitória do Nacional, por 4-2, sobre o Belenenses, na 11.ª jornada, e solidifico a minha profecia. Nesse jogo, Nenê demonstrou atributos que compõem o avançado moderno. Em resposta a um livre de Juninho, o goleador salta ensanduichado entre dois defesas azuis e com um primoroso gesto técnico cabeceia a bola por cima do guardião Júlio César. Qual cabeceador exímio… Está feito o primeiro tento da partida. Pouco depois, Nenê larga o céu e desce à terra. Descola na asa direita do ataque nacionalista, ainda longe da grande-área, e de passada larga, postura elegante, tipo velocista, galga terreno até à descarga final da pólvora seca. Fez-me lembrar Claudio López, na Lázio de Roma…há uns anos.

Mas, mais surpreendido fiquei, quando, ontem, vi Nenê marcar um potente golo num livre directo, que deu o empate frente à Académica de Coimbra, num jogo a contar para a primeira jornada do Grupo A da Taça da Liga. Afinal, o homem também marca de bola parada! Um verdadeiro achado! Não deixem que ele volte para o Brasil.


Vitória de Setúbal – A dificuldade na construção de jogo

Janeiro 8, 2009

Daúto FaquiráDaúto Faquirá vive dias conturbados em Setúbal. O Vitória ocupa o 14ºposto, a um ponto da zona de despromoção e o conjunto vitoriano tarda em encontrar-se. O seu 4-2-3-1 não tem correspondido às exigências, a equipa nunca ganhou fora de portas e em casa já avolumou quanto derrotas em sete partidas. No ataque o saldo é revelador. Sete golos em treze encontros. Mora em Setúbal a equipa menos concretizadora da Liga Portuguesa.

Tendo como premissa inabalável, as competências técnico-tácticas, que provou num passado recente, possuir, Daúto tem-se esforçado por traduzir em campo as movimentações que desenha no papel. O Vitória espraia-se em campo com uma linha de quatro defensores à frente do renascido Bruno Vale ou de Pedro Alves. Janício e Cissokho, altos e fisicamente possantes procuram esticar o jogo da equipa pelas alas. Se o cabo-verdiano é hoje um jogador relativamente completo, Cissokho procura ainda fugir da timidez. Mostra alguma agressividade com bola e é certinho a fechar. No centro, Anderson trouxe mais velocidade ao eixo. Juntamente com Robson formam uma dupla de centrais credível que procura empurrar a equipa, forçando-a a jogar mais subida no terreno.

À frente dos centrais, na primeira fase de construção do jogo setubalense, a deficiente transição para o ataque compromete as etapas seguintes. A experiente dupla de pivots defensivos, formada por Sandro e Ricardo Chaves não possui aquele toque de bola que transmita segurança no passe ou no transporte, deixando o trio que actua à sua frente, desmembrado e desligado entre si. Sandro fecha bem, preenche bem os espaços mas é demasiado posicional. Por sua vez, Ricardo Chaves surge a seu lado, não trazendo algo que realmente complemente a identidade de Sandro. É mais vertical e procura “carrilar” o jogo até à linha seguinte, mas falta-lhe algo que não se lhe pode exigir. Pedir-lhe segurança e visão de jogo digna de um moderno pivot defensivo.

Mais à frente surge alguma criatividade. Bruno Gama com bola é o fantasista. Posicionalmente, o seu jogo flui da ala para o centro em repetidas diagonais. Não tem medo de ter bola e de errar. Sem bola perde-se nas deficientes transições defensivas que efectua, e deixa a sua faixa demasiado exposta. No flanco oposto tem surgido Elias. Mais voluntário e abnegado ao choque que Leandro Lima, menos poder de imprevisibilidade e capacidade de resolver no um para um. Mateus, o estratega pauta o jogo ofensivo. Tem bons pés e faz a equipa respirar quando lhe é concedido espaço. É porventura o único jogador da equipa capaz de ter bola, de segurar para esperar pelo apoio, de fazer crescer a equipa em campo, dando-lhe personalidade. Joga de cabeça levantada fazendo girar a equipa em seu redor.

Na frente, Daúto tem apostado em Laionel. Carente de opções que entendam as movimentações e a leitura de que vem de trás, Laionel tem sido o menos mau. Falta poder de fogo a este Vitória. Instinto fatal. Carrijo traz poder físico, segura bem a bola e impõe-se à marcação. Por outro lado é demasiado fixo para conectar a “ficha” do seu futebol à ligação que se encontra distante no meio campo. Saleiro não se impôs e a equipa está órfã de uma referência no ataque. Um mal que se estende a mais equipas na Liga.

O tempo passa e Daúto tenta retalhar a manta com as linhas que se tem cozido. Refazer o duplo pivot defensivo seria porventura uma opção, jogando apenas com um trinco, e fazendo recuar em campo Mateus para a primeira zona de construção, reformulando-o enquanto jogador, dando mais consistência à saída de bola do Vitória. O experiente Bruno Ribeiro poderia também trazer algo à equipa jogando por dentro no corredor esquerdo, dando condições a Cissokho, para que este desse mais profundidade ao seu flanco. Mas ninguém melhor que o treinador moçambicano para perceber as afinações tácticas que a equipa precisa.       


Neca – Viver Ancara, ser Ankaraspor

Dezembro 29, 2008

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   Viver longe da família, dos amigos, dos costumes enraizados no sangue, do café escaldado no Café que se estende ao fundo da rua, nunca será fácil. Somos seres com urgentes necessidades sociais e torcemos o nariz à necessidade de virar a vida do avesso. No futebol as oportunidades são escassas e a casa segue forçosamente no fundo da mala de viagem. A busca pelo sucesso faz-se de cidade em cidade, de país em país, de cultura em cultura. Foi esse o caso de Neca que após quase uma década a espalhar o perfume do seu futebol pelos relvados da Liga Portuguesa, (ao serviço do “seu” Belenenses, do Vitória de Guimarães e do Marítimo) decidiu arriscar a sua sorte no campeonato turco. A equipa do Konyaspor acolheu o atleta. O atleta arrastou consigo o outro lado de si. O cidadão português à descoberta do desconhecido. O atleta procurou rapidamente adaptar-se ao futebol local. O cidadão sentiu dificuldades em enquadrar-se no quadro social que o rodeava. Hábitos religiosos que se sobrepunham a tudo o resto, poucos locais de lazer. O cheiro e o desassossego da cultura ocidental eram estranhos a Meram Konya.

 

Na época de 2007-08 tudo cambia. Ancara, a cosmopolita capital turca clama por Neca. O português acede ao pedido e passa a defender as cores do Ankaraspor, clube local. De repente tudo se conjuga. Atleta e cidadão perfeitamente adaptados. O resultado desse reencontro de vontades expressa-se em campo. Na presente época e decorridos que estão 16 jogos, Neca participou em 11 encontros e apontou 4 golos, um deles recentemente, numa soberba vitoria por 3-1 no terreno do Besiktas. O português trouxe à equipa aquilo que sempre o caracterizou. Excelente toque de bola, boa meia distancia, esclarecimento no transporte de jogo, técnica apurada, bom sentido de jogo colectivo. O mesmo Neca que se iniciou no Belenenses, a mesma irreverência, embora mais refinado e amadurecido. Um habitué no onze do team turco.

 

A equipa encontra-se em quinto lugar, a escassos quatro pontos do líder da tabela, o Sivasspor, e mercê da qualidade que tem o seu plantel, é possível que este ano haja uma surpresa no final do campeonato.  

Será desta Jesualdo?

Dezembro 19, 2008

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O FC Porto ficou hoje a conhecer o adversário nos oitavos-de-final da presente edição da Liga dos Campeões – o estreante Atlético Madrid, de Simão, Maniche, Assunção e uns tantos mais (Aguero e Forlan à cabeça). Difícil? Sim. Superável? Claramente, se a máquina olear. Com Rodriguez, Lisandro e Hulk cada vez mais entrosados nas  movimentações, trocas e deambulações, uma verdadeira avalancha de ataque cairá por cima da defesa colchonera.

Ontem, no âmbito das comemorações natalícias do FC Porto, o professor Jesualdo, ainda antes de conhecer o sorteio desta manhã, veio a ‘terreiro’ dizer que a sua equipa é ainda muito inexperiente na Liga dos Campeões e, como tal, é arriscado almejar por uma longa campanha na competição. O técnico ressalvou, no entanto, que possui cinco ou seis jogadores com maturidade na Champions – Helton, Pedro Emanuel, Bruno Alves, Raúl Meireles, Lucho e Lisandro, essencialmente.

Lá no íntimo, Jesualdo acredita que desta feita, naquela que é a sua terceira presença na liga milionária, a passagem aos quartos-de-final será muito mais do que uma miragem. Depois de verem sonhos angustiosamente  gorados ante Chelsea (2006 – 2007) e Schalke 04 (2007 – 2008), nos oitavos-de-final, os tricampeões nacionais partem com dose de favoritismo perante um menos experiente Atlético Madrid. Mas, será Jesualdo capaz de afastar o fantasma das duas épocas anteriores, sobretudo a eliminação com o Shalke 04, um adversário teoricamente ao alcance dos portistas?

Esta eliminatória com o Atlético Madrid será mesmo o grande teste de Jesualdo Ferreira para renovar o período europeu do FC Porto pós-Mourinho. Foi com o Special One ao leme que os azuis e brancos ultrapassaram, pela última vez, os oitavos-de-final da Liga dos Campeões – deixaram para trás o Manchester United e só pararam com a taça na mão, em Gelsenkirchen, depois de baterem o Mónaco.

Recordemos o ‘onze’ titular que subiu ao relvado de Old Traford, para empatar (1-1) com o Man. United, e assim afastar a formação britânica nos oitavos-de-final da Champions 2003-2004. Guarda-redes: Vitor Baía; Defesas: Paulo Ferreira, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, Nuno Valente; Médios: Costinha, Maniche, Alenitchev e Deco; Avançados: Carlos Alberto e Benny McCarthy.

Façamos agora um esboço da possível equipa que o professor apresentará para enfrentar o Atlético, ressalvando as possíveis lesões ou variações de forma até  finais de Fevereiro. Guarda – redes: Helton; Defesas: Fucile, Rolando, Bruno Alves, Pedro Emanuel; Médios: Fernando, Raúl Meireles, Lucho e Rodriguez; Avançados: Lisando e Hulk.

Num próximo post, tentarei ver semelhanças e diferenças entre estas duas equipas do FC Porto, de Mourinho e Jesualdo.

 


Vasco Fernandes – atitude e competência

Dezembro 19, 2008

 

Vasco Fernandes, 22 anos, 1.80m, 72 kg. Jovem no B.I, maduro na abordagem ao jogo. Decorridas 11 jornadas não tenho dúvidas em aponta-lo como um dos 3 melhores laterais direitos portugueses a actuar na nossa Liga.

 

A sua actuação no último Leixões – Benfica para a Taça de Portugal, enfatizou definitivamente o seu nome no contexto nacional. Embateu de frente com Reyes, encarou-o nos olhos, caiu ao tapete, ergueu-se, derrubou-o no ombro a ombro, ganhou e saiu a jogar dando profundidade à equipa pelo flanco direito. Que fôlego. Electrizante.

 

Os olhos da Premier League já deram com o talento e a intensidade de Vasco. E que bem se encaixaria em Inglaterra. É forte, inteligente, veloz e tacticamente sábio. Equilibra bem a equipa, não se aventura em correrias frenéticas se não garantir que alguém está bem posicionado para o dobrar no terreno. É jovem e competente. E a competência paga-se. Não me custa a crer que seja a última época do lateral nos relvados nacionais. Na génese do seu futebol encontro um rascunho amachucado que traça directrizes que o fazem convergir timidamente na direcção de José Bosingwa. Um bom presságio.