Bruno Fogaça, “marcar sem jogar”

Janeiro 21, 2008

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No Marítimo mora mais um daqueles casos paradigmáticos, de como no futebol por vezes não é necessário ser-se fantástico para ser-se alguém, para conquistar a aceitação do público.

Bruno Fogaça, ponta de lança de 26 anos que há duas épocas atrás trouxe outra expressão ao ataque da Naval 1º de Maio, encaixa perfeitamente no retrato desta objectiva. Actualmente não é mais que uma segunda opção na artilharia de Lazaroni. Esconde-se involuntariamente por trás da pujança de Makukula ou da subtileza de Kanu, mas mesmo assim faz questão de “assinar o livro de honra” quando lhe é dada uma oportunidade. Como que um perdigueiro farejando a caça, Fogaça por mais que esteja arredado do relvado não perde o cheiro pelo golo. É notável a sua presença na área, inspira fundo e lê na perfeição o desenrolar do lance, a bola como que por milagre “pinga” no seu raio de acção e num ápice, sempre em processos triviais, o brasileiro desenrola maneira de agitar o placard.  

Dos seus pés o futebol não sai mais requintado. Longe disso. Quando intervem fora da área, Fogaça tropeça nas suas próprias limitações e fragiliza o “tricot” madeirense. Contudo quando solicitado na marca de penalty, na hora da decisão, o avançado verde-rubro tem justificado a chamada ao onze em detrimento da ausência de Makukula, facturando 3 golos em outras tantas partidas. Mais do que jogar, Bruno Fogaça sabe marcar. E nesse âmbito é das melhores lanças que o nosso campeonato apresenta.

Carente de avançados simplistas que se desliguem do jogo e se relacionem selvaticamente com a baliza, a Liga Bwin urge em encontrar matadores que estabeleçam compromissos semanais com as redes espalhadas pelo país. Que gritem golo jornada após jornada, que sobrevivam daquilo que supostamente sabem fazer. Colar a bola à rede.

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Rui Costa – tempo de retrocesso táctico

Janeiro 10, 2008

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Rui Costa, 35 anos de vida e quase que outros tantos com a bola debaixo do braço. O sorriso de um menino que em tempos se exibia no cimento desgastasdo de um qualquer campo de futsal da Damaia, trespassou-se para a madura face de um homem realizado . As redes enrugadas dos velhos ringues eram cúmplices. Não podiam segurar por muito mais tempo a magia de quem nasceu para o futebol. O tempo embalou Rui numa caminhada progressiva rumo à sagrada camisola 10 do colosso A.C Milan. A confirmação de um ícone do futebol nacional. A unanimidade no parecer do seu jogo confirma-o. Hoje a velocidade atraiçoa-o, o ritmo desfalece à medida que o jogo se prolonga e intensifica. O perfume do seu futebol mantem-se quase que intacto. Contagia e despe de “clubite aguda” o fervoroso adepto adversário. A paixão do nº10 pelo relvado, pelo jogo, pela vitória exibe contornos de insensatez. Ver este Rui Costa em campo e o Rui Costa de 20 anos, aquele das minhas gravações empoeiradas, é quase que mais do mesmo, ouso dizer. Num flash descortinamos um denominador comum, transversal a toda a sua carreira. Paixão e regozijo por ser profissional de futebol, arrepiante.

A lei natural da vida força a regressão das nossas capacidades, diminui-nos física e mentalmente. Aos poucos vamos cedendo e cabe-nos a nós aceitar a lógica humana. No futebol, tal como na vida, nasce-se, vive-se e morre-se. Nada mais simples. Rui Costa caminha com naturalidade para o fim da linha. Nessa perspectiva seria razoável repensar as funções do “maestro” no esquema táctico de Camacho. O ritmo pausado, a vontade de jogar de frente para a baliza, o timing de decisão, tudo se conjuga a meu ver para que o pensador recue no terreno, actuando na primeira fase de construção de jogo, recebendo o esférico junto ao ultimo reduto, teleguiando o jogo benfiquista, fugindo do contacto físico e das acelerações propicias aos últimos 30 metros.

Com o avançar da idade muitos jogadores reformulam a sua concepção de jogo. Nomes como o de Zé Roberto ou Pirlo invadem-me a memória. O seu recuo em campo trouxe outra performance ás suas carreiras. Um “refresh” decisivo para a sua afirmação no contexto do futebol mundial. No caso do 10 benfiquista, não seria tanto assim, uma vez que nada terá a provar ao treinador de bancada. Contudo, pegando a partida pelas rédeas, esclarecendo tacticamente o jogo da equipa desde a saída de bola, os automatismos surgirão por instinto e trabalho, desde que encetados por quem tenha sensibilidade para o fazer. E quem melhor que Rui Costa para a referida missão? Será este certamente um dos problemas da desorganização do jogo encarnado. Desfazendo o duplo pivot Petit-Katsouranis, inoperante quando actuando nos mesmos metros de relvado, abrindo espaço a que Rodriguez se desamarre da linha, encurtando caminho até Cardozo, algumas lacunas na construção ofensiva do reino da águia seriam certamente dizimadas.