Ciclos curtos na hierarquia do Futebol Mundial

Fevereiro 23, 2008

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No futebol de top moderno, altamente competitivo e profissional, minado pela máquina da globalização que gera milhões aos cofres dos clubes de referência, os limites dos seus intérpretes, os atletas, peças basilares desse xadrez, estão constantemente a ser derrubados, na tentativa de se superarem as suas próprias capacidades naturais, por forma a corresponderem ao seu papel dentro de campo.

Se fizermos uma retrospectiva à última década, veremos que a designação vulgar de “melhor jogador do mundo” raramente assentou mais que uma, duas épocas consecutivas ao mesmo artista. Ronaldo o “fenómeno” trouxe na década de 90 aos relvados europeus, o verdadeiro conceito “joga bonito”, citando o teaser de uma conhecida marca desportiva americana. O seu fulgor e as suas galopadas alucinantes elevaram os níveis de exigência, não deixando margem de erro aos concorrentes directos. Exigia-se a Ronaldo que fosse o melhor sempre, todos os dias em todos os jogos, em mais um arrancada, em mais um golo exuberante. Ronaldo desistiu. Não soube lidar com a pressão física e psicológica que o estatuto de rei do futebol mundial acarreta. Um ex-médico da selecção canarinha confirmou recentemente que ainda Ronaldo dava os primeiros passos no PSV e já o departamento médico do clube holandês lhe ministrava esteróides anabolizantes para que o prodígio aumentasse a sua musculatura rapidamente. Hoje, o mesmo médico brasileiro realça convictamente que a causa dos infortúnios do avançado se devem a essa mesma pressão a que Ronaldo fora sujeito quando se transferiu para a Europa. São os efeitos colaterais da competição em formato de “guerra”, onde por vezes o preço a pagar para se ser o melhor é demasiado alto.

Mais recentemente o outro Ronaldo, o Gaúcho que no fundo se limitou a dar continuidade ao futebol do compatriota, reinou e dançou ao som do samba fazendo cair sobre si os holofotes da fama. Qualidades semelhantes às do “fenómeno” valeram-lhe o estatuto de rei da bola desde que chegou a Barcelona até à final da Champions com o Arsenal em Maio de 2006. Hoje Ronaldinho é uma sombra de si mesmo, eclipsou-se e perdeu o sorriso que o caracteriza. A bola divorciou-se do 10 catalão.

Agora está Káká por cima com o terceiro Ronaldo à espreita, o português Cristiano. Ambos extremamente profissionais e com brio pelo que fazem. O primeiro mais racional, o segundo mais impulsivo e fantasista. Os “dois mais” do momento. No caso do madeirense é quase impensável que não obtenha a curto prazo o galardão de melhor jogador do planeta. O desafio será manter-se por lá mais tempo que os seus antecessores, ultrapassando os ciclos curtos de durabilidade no topo da pirâmide futebolística, provando que é guerreiro na ascensão mas também na permanência no poleiro. A vida boémia, os contratos publicitários e a pressão serão os seus outsiders. Outros putos maravilha entrarão em cena para roubar-lhe o estatuto. Só nessa altura veremos se Cristiano será apenas o terceiro capítulo da novela “Ronaldo” ou sobreviverá mais do que um par de anos como “chairman” da Companhia de Futebol Mundial. Se o conseguir entrará para a nata das elites olhando de frente para Maradona, Cruyff, Eusébio ou Pélé.

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A profecia de Ronaldo

Fevereiro 16, 2008
Ronaldo lesiona-se outra vez

Ronaldo Luís Nazário de Lima, simplesmente “Ronaldo Fenómeno” para os românticos ou “el gordo” para os científicos da bola. A divergência começa onde acaba.

Mais uma fatídica lesão, agora no joelho esquerdo força Ronaldo a parar e a afirmação no Calcio parece ser já uma miragem.

Para uns será recordado como um mago, aquele que trouxe à tona do planeta futebol o recreio por excelência, puxou dos galões e vestiu-se com o talento de Maradona, as arrancadas de Eusébio, ou a fantasia de Pélé. Os nostálgicos viram na presença do “dentuço” uma forma de se renderem ao futebol actual. Ronaldo trouxe-lhes o antigamente, recordou-lhes os génios de outros tempos. O eterno “9” assegurou a rendição dos Velhos do Restelo, nem eles ficariam indiferentes ao que foi a rajada de futebol total que os seus cépticos olhos presenciaram em 96-97, ao serviço do Barcelona. Ao vivo jamais testemunhei tanta inovação, tanto querer e poder. Na retina o golo ao Compostela partindo desde o meio campo desenfreadamente rumo à certeza, a bola na rede. Bobby Robson, outra lenda viva, na altura a comandar os catalães, perde a clarividência, salta do banco e invade o relvado com as mãos na cabeça. Só visto. Ou melhor terá meditado o britânico, nunca antes visto.

Ronaldo jogava à velocidade da luz, tinha mais poder de choque do que qualquer adversário, e com a bola sob alçada do seu pé direito, recriava-se, inventava um novo apontamento, para a miudagem treinar na escola. As célebres “virgulas”, as “pedaladas” por cima do esférico, aquela imaginação na hora de encarar o oponente, um delírio. O fenómeno imprimia uma velocidade acima dos demais. No topo do bolo, a cereja. Um enorme talento para balançar a rede. Tudo misturado nas devidas proporções e o resultado só poderia ser…Ronaldo pois claro, o genuíno e primeiríssimo na dinastia que lhe seguiria as pisadas. 

Contudo no melhor pano cairia a nódoa. As lesões no joelho direito encarregar-se-iam de esfumar o seu sonho. As mulheres que conquistou, e os milhões que averbou deram-lhe a estocada final. Reergueu-se mais do que uma vez mas nunca mais voltaria a ser aquele Ronaldo, o careca dos posters e dos vídeos que desconcertou o mundo. Seja por infortúnio, seja por deslumbramento, ou falta de objectivos, estou convicto que el gordo teria capacidades para reinar na elite dos melhores como número 1 durante anos a fio. O destino diriam os fatalistas, assim não o permitiu. Resta-lhe recuperar de novo infortúnio e tentar voltar a ser um terço do que já foi. Já seria o suficiente para nos vidrarmos ao pequeno ecrã.