Wesley – “Jogando na rua”

Abril 29, 2008

Como bom adepto que sou, dou valor a quem tem arte nas chuteiras. Pontualmente saio do domínio racional, do entendimento do jogo, da primazia do funcionamento de uma equipa como um todo e estendo o tapete aos “bons de bola”. Por vezes “esgasgam” a engrenagem e as rotinas de jogo do colectivo, com uma finta a mais, uma simulação fora de timing, prendem a bola mais um segundo e esfuma-se uma hipótese de contra ataque venenoso. Mas são eles que trazem o “sal” ao jogo.

 

Wesley cabe perfeitamente nessa fotografia. É a referência do Paços de José Mota. Ninguém trata a bola como ele na Mata Real. Tem um pé esquerdo fantástico, é possante, aguenta bem a carga, é malabarista e encara nos olhos qualquer defesa contrário. Entra em campo com a certeza que está na rua, na “peladinha” entre amigos de infância. As latas imaginárias são os postes e a parede é a rede. Sabe que tem nas pernas a “ginga” que só nasce com alguns, e que escasseia numa equipa de guerreiros voluntariosos. Neste desfecho facilitado, o pé canhão pacense ganha ainda mais brilho.

 

Não fosse o jeitinho sul-americano que lhe corre nas veias, para esbater o ritmo de trabalho europeu, para tornear o esforço e as exigências da competição, para viver á sombra do lema da canção de Martinho da Vila, “devagar devagarinho” e Wesley vestiria a 10 de importantes equipas do contexto europeu. Assim sendo ficou-se pelas tentativas no Vitória de Guimarães e no Alavés. São opções de vida numa carreira que poderia ter outro sabor bem mais aprazível.    

 


Dilemas tácticos – 4-4-2 ou 4-3-3?

Abril 23, 2008

As opiniões de café dividem-se quando a conversa ganha rigidez táctica. Dizer-se que Barcelona, Manchester United ou Chelsea são antros sagrados de génios da bola é redutor. Por detrás da constelação de estrelas há um guia espiritual, um general ditador ou um democrata flexível. Mas mais do que vincar a sua personalidade no balneário, é imperativo exteriorizar a sua filosofia de jogo, dispor as “pedras” no tabuleiro de acordo com o seu pensamento e a sua concepção táctica. 

 

Aqui entramos num dossier complexo. Há treinadores que procuram moldar um plantel ao seu esquema táctico. São rígidos, cautelosos e avessos ao risco, sabem que têm boas hipóteses de triunfar seguindo os pressupostos que adquiriram desde o início da carreira e aos quais se mantiveram fieis. Por outro lado existem aqueles, normalmente mais jovens, dispostos a radiografar o plantel para lhe retirar os sintomas tácticos mais aconselháveis. Por vezes perdem-se na indecisão e os objectivos ficam para trás. Adiante.

 

No baú das tácticas latinas pontificam hoje o 4-4-2 e o 4-3-3.

Inúmeras equipas actuam em 4-4-2 por essa Europa fora. Em Portugal temos como exemplo o Benfica e o Sporting. Na Espanha o Real Madrid ou o Valência. Na Inglaterra o Manchester United ou o Arsenal. Todos actuam tendo como princípio de jogo a colocação de 4 homens na intermediária. Jogando com alas bem abertos ou num rebuscado losango, é evidente que são as dinâmicas de jogo adquiridas no treino que irão doutrinar as movimentações em campo, saber quem sobe e quem fica, quem compensa, quem aparece no espaço. Tudo “subcapítulos” de uma base universal, o 4-4-2.

 

De escudo em punho defendendo o sucesso do 4-3-3 temos o Porto de Jesualdo Ferreira. Barcelona, Chelsea ou Lyon também assentaram o seu sucesso recente neste pressuposto táctico. No 4-3-3 a ocupação de espaços é bem mais trivial. A própria disposição natural no terreno por parte dos jogadores ajuda a que os espaços defensivos e ofensivos de uma equipa estejam bem mais preenchidos, melhor arrumados diria. No fundo nesta variante táctica os mecanismos de jogo são a meu ver mais facilmente apreendidos, não necessitam de um profundo conhecimento táctico do jogo por parte do seu mentor. As tarefas em campo são mais facilmente absorvidas e a equipa conquista os seus equilíbrios precocemente.    

 

Ao invés, com 4 homens no centro da batalha, apesar da teórica superioridade numérica, a eventual indisciplina táctica dos seus alas ou a sua deficiente condição física deixam o duo de centro campistas reféns do adversário, e com dezenas de metros por palmilhar, partindo consequentemente a equipa ao meio. Por outro lado quando bem interpretado no plano ofensivo, a equipa estende-se a toda a largura do terreno, jogando mesmo assim apoiada, podendo ensaiar um cem número de situações de golo distintas.

Dilemas tácticos do século XXI.