Iniesta – Relacionar-se com o jogo e não com o golo

Junho 30, 2008

Gostei de ver Iniesta neste Euro 2008. Sou um fiel admirador das características deste box to box espanhol. Porém ao serviço da selecção, raramente conseguiu impor a sociedade que ratificou há já algum tempo com Xavi em Barcelona. Faltou-lhe sempre um vértice mais recuado no meio campo, capaz de perceber as suas movimentações verticais no terreno, capaz de ser o primeiro a recuperar mas também o primeiro a construir, libertando Iniesta de espaços demasiado recuados e impróprios para o seu talento.

 

Nesta revitalizada Espanha, surge um novo peão em campo que desamarra o prodígio catalão para o jogo. A chegada ao onze de Marcos Senna, veio trazer a confiança que Iniesta precisava para segurar o jogo da equipa. Com as costas serenamente resguardadas, Iniesta como poucos, define os tempos de jogo. Cabeça bem levantada, visão periférica. Um olho nas movimentações paralelas de Xavi e outro na referencia do ataque, “el niño” Torres. Pelo meio vai jogando e fazendo jogar. Em três tempos faz a transição. Defensivamente surge num ápice a ocupar o seu reduto. Ofensivamente tira partido da excelente circulação de bola que consegue gerar. É rápido e surge em zona de finalização com muita facilidade. É talvez este o aspecto de jogo que tenha de rever. A sua obsessão por se relacionar com o jogo e não com o golo faz com que perca algumas ocasiões flagrantes para marcar. Na cara do guarda-redes, Iniesta ainda teima em sacudir a responsabilidade do seu capote. Treme na finalização e opta por entregar o destino da bola ao colega mais próximo. Na final contra a rival Alemanha, Iniesta por mais que uma vez, esteve cara a cara com Lehmann. Retirou a pressão de si próprio e procurou um apoio directo para definir o remate letal. São lacunas evidentes no seu jogo mas que de certa forma não assombram outros atributos impares que possui. Nos últimos 30 metros e rodeado por três, quatro adversários, Iniesta tem o dom de desconcertar o momento. Fabrica uma fenda na muralha que o cerca e adorna um passe “redondo” que rasga a ultima linha contrária, isolando qualquer avançado móvel deste planeta. Foi assim na cavalgada do “Barça” rumo á conquista da Champions de 2005-06, e foi assim este ano no Campeonato da Europa.

 

Momentos mágicos protagonizados por quem se relaciona freneticamente com o jogo e nunca com o golo.

 


Onde pára a squadra azzurra?

Junho 12, 2008

Sofrível. Confrangedora.  Irreconhecível. Adjectivos que definem a estreia da Itália no Euro 2008. Quereria Donadoni repetir a receita que a squadra azzurra utilizara perante uma outra Holanda – igualmente estética, mas menos pragmática – na meia-final do Euro 2000, onde os transalpinos resguardaram-se no último terço do terreno, jogando meramente no erro do adversário? Nesse embate,  os actuais campeões do mundo acabaram por ganhar nas grandes penalidades. Aqui não havia penaltys, mas talvez o empate até não fosse mau de digerir para Buffon, Pirlo, Toni & Companhia.

Quando pensamos na squadra azzurra, vem-nos imediatamente à cabeça a ideia de um forte revestido de uma densa muralha formada de peões azuis. Baresi, Madini, Canavarro, Panucci, Nesta, Pessotto, Zambrotta na linha defensiva; Albertini, Dino Baggio, Christian Zanetti, Di Biaggio, Pirlo, Gattuso, Ambrosini, Perrotta na intermediária. Todos eles referências e intérpretes na perfeição do tão proclamado e contestado cattenaccio. Roberto Baggio, Totti ou Del Piero davam a porção mágica; Singori, Vieri ou Inzaghi faziam chegar o gélido veneno às balizas contrárias. Mas onde pára a squadra azzurra?

Panucci, Zambrotta, Pirlo, Ambrosini, Gattuso e Del Piero – este apenas na parte final da batalha – lá estiveram, na passada segunda-feira, vergados à humilhação imposta pela renovada ‘laranja mecânica’. Tristes, apáticos e carregados de um cattenaccio demasiado pesado de transportar como estigma. Perfeitamente sabedores e conscientes de que a famosa estratégia não se faz sem artistas de porção mágica, Pirlo e os outros foram esperando que o velho e o recente passado pairassem por um qualquer miraculoso instante. Mas sem Baggio, Totti ou o Del Piero, os holandeses apenas apressaram o tempo. Numa equipa titular com apenas três jogadores de cariz ofensivo – não que isso fosse algo de novo nas selecções italianas -, onde estava o artista? Di Natale? Não é, nem será, certamente, ele que terá a varinha de condão. Camoranesi? Decididamente, não. E Toni? A esse pede-se-lhe que liberte o veneno. Mas, ainda assim, quem não tem saudades do ‘letal’ Inzaghi ou do possante Vieri?

Artista? Só Pirlo. Mas o pivot milanês, preso a marcações, raras as vezes conseguiu chegar às imediações da área contrária para executar, como ele sabe na perfeição, o último passe – à semelhança daquele ‘toque’ de Iniesta para o segundo golo da Espanha e de Villa na vitória de nuestros hermanos contra a Rússia.

O que fazer então? Restará a Donadoni resgatar o ‘veterano’ Del Piero para o onze inicial, em detrimento do inconsistente Camoranesi. Juntar o criativo da vecchia signora a Di Natale, a fim de dar apoio, nas costas, ao desamparado Toni. E com a saída de Camoranesi, exigir aos laterais que subam mais e criem desequilíbrios no meio-campo adversário. De um lado Zambrotta, do outro Grosso. Pannuci já não pertence a este forte.

Sem os míticos Cannavarro e Nesta, caberá, inevitavelmente, ao malfadado Matterazi liderar a defensiva, claro está, com a voz de comando e a presença intimidadora de Buffon atrás. 

Devolvam Del Piero à squadra. Ele tem a porção mágica. 

 

 


Dário Conca – Um ultra-leve ao serviço do colectivo

Junho 6, 2008

Dário Conca, 25 anos, 1.67cm e cerca de 60kg. Um ultra-leve argentino a voar pelas alas do meio campo do Fluminense. Oriundo do River Plate, Conca chegou ao brasileirão pelas portas do Vasco da Gama, mas só agora no “Flu”, plenamente adaptado, vai justificando o porquê da sua contratação. Dotado de excelente técnica e sentido de jogo colectivo, o baixinho tricolor arrasa a oposição com arrancadas poderosíssimas que fulminam qualquer tentativa de perseguição. Fisicamente é bastante frágil necessitando por isso de melhorar o seu fraco poder de choque, uma vez que perde fulgor quando é obrigado a disputar um lance dividido. Contudo, para lá da rapidez de execução que possui, Dário Conca é um especialista em lances de bola parada. Um caso a seguir com atenção não só no campeonato brasileiro, mas essencialmente na Libertadores, onde foi peça fulcral na caminhada até á final da competição.   


John Terry – O reverso negro da medalha

Junho 6, 2008

O futebol brinda-nos constantemente com momentos mágicos. É uma mistura de sensações contraditórias que vorazmente nos entopem as veias. Em segundos tudo muda e muda também o estado de alma de quem está sentado no sofá. A final da Champions foi exemplo cabal disso. John Terry antes de avançar para a fatídica marca dos 11 metros, rubricou uma exibição notável, ofuscando o brilhantismo dos atacantes do Manchester United. Estava a partida na rectal final quando miraculosamente, o capitão do Chelsea salva o golo que ditaria a vitória dos “Red Devils”. Nada o fazia prever mas Therry, fiel á sua personalidade dentro de campo, fez das tripas coração e heroicamente evita o inevitável. Foram minutos em êxtase para o timoneiro dos “blues”, as câmeras cinicamente destacavam o feito do guerreiro, para minutos mais tarde o apunhalarem pelas costas, quando falhou onde jamais poderia falhar. Errou o pontapé que o atiraria para a glória. Idealizou a bola a anichar-se nas redes antes de ter partido ao seu encontro. O relvado qual Judas, encarregou-se de o entregar novamente as olhos do mundo pelas piores razões. Therry cai ao chão e o troféu mais ambicionado na Europa do Futebol saiu pontapeado em direcção á bancada.

Num momento herói, no outro crucificado e enclausurado. E só o futebol para apadrinhar este sentimento tão efémero.