João Vieira Pinto – o patriota da geração d´ouro

Julho 27, 2008

Corria o chamado verão quente de 1993. O Sport Lisboa e Benfica terminara a época em 2º lugar na liga. A conquista da Taça de Portugal viria a esconder momentaneamente a periclitante condição financeira do clube. Pacheco e Paulo Sousa, dois valores seguros da águia, rescindem por justa causa e voam para Alvalade. João Vieira Pinto, embalado pelas convicções de Sousa Cintra avança para o mesmo desfecho. Jorge de Brito reage e resgata o “menino d´ouro” de volta aos quadros da Luz. Foi quante baste para que na época seguinte aparecesse em campo iluminado. Titular indiscutível no eixo do ataque benfiquista, entendo-se de olhos fechados com Ailton, assina exibições simplesmente irrepreensíveis. Para a eternidade ficará o célebre 3-6 em Alvalade, o jogo do título. O jogo da vida de João Vieira Pinto. Um hat-trick contornado com lances de génio, verdadeiras obras de arte derramadas no encharcado tapete leonino.

 

Nos resumos do bloco desportivo da extinta Tv2, Gabriel Alves espraiava-se em louvores à camisola 8 encarnada. Bem ao seu estilo, o mítico comentador apregoava exaustivamente a qualidade técnica de João Pinto -“o pé direito não pede licença ao esquerdo e o esquerdo não pede licença ao direito!”, “e repare-se o minuto 30 chegou… o minuto do génio e do pontapé de 30 metros!”. Afirmações embebidas numa nostálgica porção de excentricidade e emoção arrepiantes, mas que diziam e dizem tudo do que foi João Vieira Pinto enquanto profissional de futebol. Tecnicamente era soberbo e roçava a perfeição no envolvimento que proporcionava ao jogo colectivo da equipa. Nas alturas era sarcasticamente perigoso. Elegeu o golo que fez de cabeça, em 2000, contra a selecção inglesa, como o melhor golo da sua carreira. Na definição das jogadas ofensivas, mostrou-se sempre voraz “picando o ponto” com uma regularidade assinalável. À medida que foi envelhecendo foi refinando as suas características, trocando o pressing constante lá na frente por movimentações calculistas e precisas entre linhas. “Doutorou-se” na arte de bem assistir e elevou aos céus o nome de Mário Jardel na melhor sociedade que ratificou ao longo de praticamente 20 anos de carreira.

Posteriormente no Bessa, e depois em Braga, João Pinto lá foi mantendo irreversivelmente o “perfume” que desde Riade trouxe consigo. Pé direito de lã e um recorte técnico de deixar feridas psicológicas em quem o “bafejava” em campo.

 

No reverso da medalha, e contrapondo ao seu futebol de primeira água, envolveu-se em polémicas que aqui e ali borraram o estatuto que conquistara. Em campo com Paulinho Santos, entre eternas trocas de violentas agressões que acompanharam a sua permanência no Benfica (e de Paulinho no Porto), ao “célebre” murro a Angel Sanchez (árbitro argentino) ás vistas do mundo, em pleno Mundial 2002, que ditaram o seu afastamento algo prematuro da Selecção Nacional. Erros capitais de um peculiar temperamento e de uma maneira de estar no futebol muito própria.

 

Nas quatro linhas e ainda antes do Mundial de 2002 foi surpreendentemente dispensado com todas as letras, por Jupp Heynckes. A frieza germânica não compreendera o génio de um atleta a todos os níveis brilhantes, e se em algum momento da sua carreira fraquejou, o simples facto de ter carregado a equipa encarnada aos ombros durante todo o deserto de ideias que atormentou a Luz em grande parte da década de 90, rejeitando quantias astronómicas na Premier League e em Espanha, é motivo mais do que suficiente para fosse categoricamente respeitado. 

 

Queiroz disse um dia que Eusébio foi o maior jogador de futebol que alguma vez viu jogar. Eu digo que João Pinto não foi Eusébio mas foi um dos 5 melhores jogadores portugueses da última vintena de anos. Para mim, logo depois de Figo e Rui Costa, foi o grande embaixador do que melhor se fazia por cá. E não chegou mais longe por errar na gestão desportiva da sua carreira. Emigrou precocemente quando emigrar era uma novidade arriscada. Aprisionou-se no dilema de voltar a tentar quando o seu futebol maduro exigia que o fizesse. No receio de falhar novamente, abdicou de competir nos principais palcos da Europa, ficando para trás na corrida á elite dos “melhores dos melhores”.    

 

Terminou a carreira sem o glamour que merecia. Sem ser manchete nos jornais, sem reportagens muito alargadas, sem o louvor que nestas circunstancias se atribui aos do seu calibre. Para esse desfecho pesou o facto de não pendurar as botas no balneário de nenhum dos três grandes. Mas nada disso importa excessivamente. O importante é relembrá-lo em campo – cabelo comprido, olhar rebelde, franzino, leve como uma pena serpenteando os adversários. Cinco temporadas no Boavista, oito no Benfica, quatro no Sporting e duas no Braga. O verdadeiro patriota. Parabéns João.

 

 


Pablo Aimar – O vendedor de sonhos

Julho 18, 2008

Pablo César Aimar, 28 anos. Um vendedor de sonhos aterra no seio do universo benfiquista. “El payaso” (alcunha baptizada por um jornalista argentino pela forma como na altura, o míudo Aimar com apenas 17 anos já evidenciava os seus dotes de predestinado na equipa do River ) desembarca em Lisboa com a esperança legítima de voltar a colar á relva o futebol que o celebrizou na América do Sul, e o confirmou nos primeiros anos de Espanha (no Valência de Rafa Benitez) como um dos mais finos executantes do cenário mundial. Esperança legítima detem também o aficionado encarnado no mágico argentino. Dele espera sede de vitória. Nele quer ver emergir a tenacidade de um pibe que tem de dar tudo o que tem pela causa, reconfortando a alma ao exigente “terceiro anel”, pintando o retrato com flashes relampejantes de arte. Para isso nada mais simples do que encontrar em Aimar, o Adn futebolístico que o lançou para a luz da ribalta. É o que se pede. O futebol português agradece com mais gente na bancada. E mais talentos como Aimar viessem ao nosso encontro. Mesmo que por vezes em condições físicas complexas, mesmo sem a chama enérgica dos primeiros dias de carreira. São craques de berço se me permitem que o diga. Nasceram para jogar bom futebol porque não o sabem fazer de outra forma. Recepcionam, transitam, driblam e giram, adornam e voltam a partir para cima. Param e descongestionam. “Matam” no peito e adormecem o jogo ao seu ritmo. Colocam o esférico com capricho longe dos olhos do guardião do templo. São traços gerais transversais a todos os descomplexados magos da bola. Transversais a Aimar, a Riquelme ou a Saviola em particular. O trio das pampas que emigrou para a Europa com o carimbo de Maradona na etiqueta das camisolas. Não fizeram da regularidade exibicional o seu prato forte. Não deram tudo o que tinham. Acomodaram-se e perderam-se um pouco no tempo. Mas qualquer um deles transpira classe e qualquer um deles traria armas fortíssimas para (ajudar) a desempenar a engrenagem ferrugenta da nossa liga.

 

Deixemos Aimar entrar em campo e montar nos últimos 30 metros um autêntico quiosque de sonhos, para gáudio de quem venera pacificamente o futebol. E esperemos que o defeso reserve mais qualidade extra á nossa liga.