Atlético de Madrid – Movimentando-se defensivamente em 4-4-2 clássico

Setembro 19, 2008

Gostei da exibição do Atlético Madrid neste seu regresso á elite dos campeões. Na estreia, coube-lhe a árdua tarefa de se impor num terreno complicadíssimo para quem o visita, o Philips Stadium.

 

O mexicano Javier Aguirre pelo que tenho visto, mantém-se fiel a um 4-4-2 puro de asas bem abertas, digamos que a variante base deste modelo de jogo. Muito se discute se é possível nos dias que correm, (onde as equipas cada vez mais apetrecham o meio-campo com varias unidades na tentativa de segurar as rédeas do jogo), que uma formação se apresente apenas com dois homens no centro das operações. A chave para derrubar o classicismo deste esquema táctico reside a meu ver, em duas possíveis nuances. Os dois médios centro têm de ser tacticamente exemplares, e fisicamente disponíveis para aguentar a intensidade e o volume de jogo, sendo que um deles terá de se posicionar mais próximo da linha defensiva. E os alas tem de se voluntariar constantemente na ocupação de espaços quer no corredor interior, quer no extenuante auxilio aos seus laterais. Com esta dinâmica de movimentação defensiva, o quarteto encurta espaços, fecha linhas de passe e resguarda o ultimo sector.

 

Ora não é fácil encontrar alas que o saibam fazer, e acima de tudo que estejam dispostos a tanto sacrifício. Talvez por isso Simão tenha arrumado com a concorrência no Atlético de Madrid. Não é tão virtuoso e malabarista como um Reyes ou até mesmo um Cléber Santana mas é muito mais do que isso. É garantia que é o primeiro defensor do seu flanco e o primeiro a jogar para a equipa. Parte para o individualismo como recurso e por isso se vem afirmando na extrema-esquerda. Na direita fecha Maxi Rodriguez ou Luís Garcia. No meio está o pêndulo Assunção, na “cabeça da área” quando preciso, e o fulgor de Maniche que ora pressiona atrás, ora aparece no espaço vazio para receber mais á frente, dando profundidade na transição ofensiva.

 

Atrás um quarteto denso comandado por Léo Franco : António Lopez e Luís Perea nos corredores, Ujfalusi e Heitinga como pilares no eixo. Lá na frente Aguero e Folan, uma dupla fortíssima.

 

É possível jogar em 4-4-2 clássico. O procurado sucesso advém da dinâmica que os seus intérpretes lhe dão, e o Atleti é um bom exemplo disso, como já foi há algum tempo o Valência de Cúper ou de Benitez.


Hulk – o incrível

Setembro 9, 2008

 

Givanildo Vieira de Souza é mesmo reforço de peso para o F.C.Porto. Se me dissessem há um par de meses atrás, que um tal de Hulk – o incrível, viria para o ataque do Dragão, duvidaria da fonte. Se me reforçassem a tese recorrendo ao historial recente do avançado, apresentando-me como garantia a passagem pelo Tokyo Verdy do Japão, diria que não seria de todo possível. Na linha da frente, o Porto tem Lisandro, um dos melhores “strikers” dos relvados europeus, tem Farias, um excelente complemento e pouco espaço sobraria para este “erro de casting”, pensaríamos todos. Pois bem, Hulk apresentou-se com as mesmas características que fazem do seu homónimo, uma estrela de cinema. Forte como um touro, explosivo como um canhão e rápido como um míssil. Em poucos dias de azul e branco, o brasileiro já dissipou todos os “ses”. É bom de bola e tempera o seu jogo numa autoconfiança assustadora, ponto final. Hulk – o incrível, numa nesga “puxa a culatra atrás” e dispara. Já fuzilou Júlio César (guarda-redes do Belenenses) na primeira jornada da Liga e pôs Quim em sentido na segunda. Uma agradável surpresa, vinda do sol nascente. Quem diria.


SP. Braga e Jorge Jesus – a filosofia de um golo

Setembro 5, 2008

“Não altero o modelo em função do adversário”. É este o busílis da questão, o paradigma a que Jorge Jesus se agarra e que melhor define o seu perfil. Na verdade, esse mesmo modelo, tem vindo a ser solidificado, sobretudo, desde o tempo de experimentação e maturação no tubo de ensaios do Restelo. Tem trabalhado metodicamente a raiz do seu 4-4-2 losango, o seu sistema táctico por excelência e as respectivas dinâmicas de movimentação, que o fazem emergir para o jogo. Discípulo do futebol atractivo, feroz, de ataque premeditado ás redes, o timoneiro de Braga mantém-se fiel aos seus princípios, defender bem para atacar melhor.

 

Em Braga mora um plantel homogéneo, recheado de potencial e de pelo menos duas opções para cada posição. Confesso que ambicioso como sou, por ver clubes de média expressão darem o grito do Ipiranga, para bem da competição interna, vejo nesta equipa gestão e estrutura para se assumir no panorama nacional, como alternativa válida ás tradicionais lides de campeonato.

 

Nas quatro linhas Jorge Jesus espraia a amplitude do seu losango, encurtando terreno defensiva e ofensivamente. Na baliza uma confirmação, Eduardo, muito provavelmente a maior certeza pós-Quim na selecção nacional. Nas laterais, João Pereira em claro crescimento futebolístico (apesar da imaturidade psíquica que ainda o atormenta) faz todo o corredor sempre a fundo. No outro flanco, Evaldo, mais físico, menos afoito com a bola, procura equilibrar a equipa posicionalmente. No eixo, reside um Rodriguez imbuído no espírito arcebispo. Combativo, lesto e forte nas alturas, alia-se a Moisés que mercê mais da vontade do que do engenho, lá vai ganhando o seu espaço. 

 

No meio está a virtude, o carrossel ofensivo que embala a equipa e fomenta a filosofia do golo. O turbilhão de emoções sacudido pelos pés do trio que tem por missão jogar e fazer jogar. Com um único pivot defensivo na retaguarda, previsivelmente Frechaut ou Andrés Madrid, o meio-campo ganha asas e cava os pormenores que definem a diferença no marcador. Com Alan na meia direita, César Peixoto ou Matheus sobre a esquerda e o uruguaio Luís Aguiar como estratega puro, este Braga ganha contornos de malvadez ofensiva, lançando-se para o golo de cartucho cheio. Na conclusão avista-se Linz e Meyong com Paulo César apto a intrometer-se. O primeiro mais ponta-de-lança, o segundo mais “bom de bola”, móvel e dado ao choque, o terceiro mais rápido e letal. Há ainda Renteria, Vandinho, Stélvio, Wender ou Mossoró, peças de primeira linha que revestem o plantel com detalhes de equipa grande.

 

São estes pequenos traços que fazem com que siga de perto o escrutínio do treinador minhoto. Olhos postos na baliza do adversário, bola teleguiada de flanco a flanco, bola á flor da relva, bola no espaço vazio, bloco subido encostando o oponente ás cordas, bloco da autoria de Jorge Jesus. Domina os conceitos tácticos do jogo, aplica-lhes o cunho do seu teor psicológico e escolhe á pinça os intérpretes que o fazem rolar. Como ele próprio diz, não faz “nada de especial”, apenas “escolhe os melhores para cada posição”. O futebol na batuta de quem entende a sua pureza e a conserva. Um caso a seguir com atenção durante a Liga.

 

 


Ricardo (Re)Nascimento – qualidade na posse de bola

Setembro 3, 2008

Já tem 34 anos é certo, mas é certo também que Ricardo Nascimento vem acrescentar à Liga Sagres qualidade na posse de bola. É o típico médio-centro criterioso no passe, de passada larga e boa meia distancia. Joga de cabeça erguida, foge bem ao choque, forçando a verticalidade no jogo do Trofense. 

 

Ricardo Nascimento é o 10 de Trofa, o pensador de jogo. Já o foi no Rio Ave, no Salgueiros, no Gil Vicente no Desportivo das Aves e recentemente no F.C Seoul da Coreia do Sul. Falhou em momentos capitais da carreira, quando não se conseguiu impor no Boavista ou no Sp.Braga, mas não deixa de ser um jogador “fino” e elegante no último passe. Procura agora no regresso ao primeiro escalão renascer das cinzas, e fazer uma ponta final de carreira consentânea com o calibre do seu pé direito. Os beneficiados? “Zé do Golo” e Lipatin, os artilheiros de permanência.