William – A necessidade de ser referência

Novembro 18, 2008

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Dos 10 golos apontados pelo Paços de Ferreira esta época, o avançado William de 26 anos carimbou 6 tentos, gozando até ao momento do estatuto de “artilheiro” da Liga Sagres. Foi contratado com o objectivo de libertar a equipa dos últimos lugares da classificação, e não tem sido pela sua prestação, que os “castores” ocupam um preocupante penúltimo posto.

Na época passada, quando ia sentindo o pulso à equipa do Paços, constatei inúmeras vezes que a equipa era demasiado curta, que Edson, Cristiano, Carlos Carneiro ou Wesley não tinham o killer instinct que a Mata Real precisava. Este ano a equipa tem estado mais solta, tem criado e concretizado mais ocasiões de golo mas o problema parece ter recuado no campo. O Paços de Ferreira sofre demasiado.

O carioca William veio conferir à equipa maior imprevisibilidade, instinto na procura de espaços, “faro” pelo golo, algo que desde os tempos de Ronny não via na capital do móvel. Com William, o conjunto de Paulo Sérgio ganha claramente uma referência no ataque, uma espécie de “onda transmissora” que interfere fortemente na recepção de sinal da turma pacense. Desconstruindo, William galvaniza a equipa, incentiva-a a criar futebol. Mexe-se muito bem dentro e fora da área e tem aquela dose de egoísmo no sangue, que muito prezo num matador. E é bom de bola. Sinto-o numa fracção de segundos, numa simples recepção, num esgueirar para a finalização, no encantamento pelo golo. Até pode não fazer muitos mais durante a época, mas o bom futebol criará sempre empatia com as suas botas.


O que diferencia os Zés?

Novembro 18, 2008

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José Mourinho e Manuel José. O que terão estes dois senhores em comum? O nome, a profissão, prestígio internacional, conquistas (de ligas de campeões, inclusive). Mas porque será José Mourinho Special e Manuel José não? O simples facto de Mourinho ganhar no mediático e industrial futebol europeu faz toda a diferença, mas há muito mais para além disso.  

Centremo-nos no discurso. Ouvir Mourinho numa conferência de imprensa, ou numa entrevista mais particular, é sempre excitante. Basta recordar os momentos de apresentação aos media, aquando das chegadas ao Porto, Chelsea e Inter. “Tenho a certeza de que seremos campeões nacionais na próxima época”; “I’m a special one” ou “Non sono un pirla” foram expressões marcantes, que criaram enorme frisson. Mourinho tem e cultiva um tom de desafio e de confiança extrema, mas dificilmente cai no ridículo. Fá-lo com charme e pose.

Por seu lado, Manuel José promove imperativamente um discurso de avareza, de ‘bota abaixo’, de mesquinhez. Faz acusações que deixa por meias palavras, oferece os seus serviços, com uma postura despropositadamente altiva, para treinar em Portugal. Sempre que os holofotes se viram para a sua pessoa, ou seja, quando os seus feitos o justificam, como a recente conquista da Liga dos Campeões Africanos, pelo Al-Ahly, o ex-treinador do Benfica, Marítimo e Boavista aproveita para lançar farpas em vários quadrantes.

“Com Pinto da Costa à frente do FC Porto, nem morto”; “Estava tudo montado para Carlos Queiroz ser o seleccionador”; “Eu sabia que não ia ser seleccionador, porque sei o que se passa no futebol português, quais são as ligações que existem, os rabos-de-palha”, foram algumas das últimas ‘profecias’ do tetra campeão africano de clubes. Penoso, deprimente.


‘Estilo Queiroz’ assenta na ruptura com ‘era Scolari’

Novembro 17, 2008

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Quando um treinador chega a um determinado clube ou selecção para substituir um antecessor com mais de cinco anos ininterruptos de casa, terá obrigatoriamente de trazer e impor um estilo próprio, que rompa com as ideias anteriores. Carlos Queiroz, conhecedor do cunho de Luiz Felipe Scolari na cultura da selecção nacional, rápido se apressou em mostrar que o tempo era de ruptura com as escolhas, hábitos, tiques e feitios do brasileiro.

Queiroz começou por mexer na faceta mais mediática de uma qualquer selecção nacional: a escolha dos jogadores, nas sempre esperadas e contestadas convocatórias. Logo na nomeação dos intérpretes para o particular com as Ilhas Feroé, o professor livrou-se do ‘fardo’ Ricardo e ‘esqueceu-se’ do intocável Petit. Por outro lado, chamou o guardião Eduardo – jogador que Scolari prescindiu no Europeu apenas por uma questão de sobranceria perante a ténue pressão dos media -, lembrou-se de Antunes,  Duda, Manuel Fernandes e Danny – este último Scolari não deveria  conhecer, pois replicou sistematicamente que Portugal não tinha substituto para Deco, apresentando-se, desta forma, com um único playmaker no Euro 2008.

Segurar Paulo Ferreira, enquanto afasta Nuno Gomes

Com esta primeira convocatória, Queiroz afastou pesos-pesados do ‘sargentão’ e, ao mesmo tempo, trouxe sangue novo à equipa das quinas, passando a mensagem de ser um ‘promotor’ nato da cultura de mérito: independentemente do nome, quem joga e fá-lo bem no seu clube pode ser chamado. Claro que há excepções, a mais incompreensível é a opção sistemática em Paulo Ferreira para defesa-esquerdo, após os dissabores do último Campeonato da Europa. Mas será o lateral do Chelsea um escudo que Queiroz terá para se defender da acusação de ruptura com a ‘era Scolari’, caso a campanha para África do Sul não seja bem sucedida? Muito provavelmente.  Até porque para aquela posição ainda não surge um nome unanimemente aclamado por media e adeptos.  

E, enquanto segura Paulo Ferreira, ganha espaço para se livrar de outra referência do íntimo grupo ‘scolarista’: Nuno Gomes. A convocatória para o Brasil parece-me um indício forte de que o benfiquista só voltará à selecção em caso de enorme penúria de outros avançados. O problema é que, aqui,  Queiroz não tem abundantes opções. Além de Almeida, sobra Postiga (outro ‘menino’ de Scolari), isto se o professor se guiar pela cultura de mérito, pelo desempenho nos respectivos clubes. Djaló, Makukula e Vaz Tê pouco ou nada jogam nas suas equipas. Sempre poderá ser audacioso e trazer Edinho, do AEK. Aguardemos. Outra opção para descartar Nuno Gomes, seria, claro, convocar o naturalizado Liedson. Não acredito. Se o fizesse deitava por água abaixo o seu estilo de ruptura scolariana.

Contornar em vez de afrontar os media

Mas, para lá das escolhas dos jogadores, Queiroz tem-se demarcado do actual técnico do Chelsea em várias acções do quotidiano de um seleccionador. Além das benéficas idas aos jogos, sentando-se cordialmente ao lado de Pinto da Costa ou Luis Filipe Vieira (para breve estará marcado um lugar ao lado de Soares Franco), Queiroz tem sabido gerir bem a comunicação. Acabou com as conferências de imprensa aquando da convocatória, remetendo para o site da FPF os nomes dos eleitos, bem como, ultimamente, imagens, também da FPF, que documentam justificações da escolha de um ou outro jogador. Se estivesse no papel do jornalista desportivo, acharia absurda esta opção. Enquanto assessor de comunicação, vejo como inteligente esta atitude de tentar diminuir ao máximo o burburinho logo após as convocatórias. Para compensar os media e os adeptos, Queiroz alargou os momentos de comunicação, de jogadores e técnicos, durante cada operação da equipa nacional. Muito bem. É nessa altura que mais interessa ouvir e debater o tema selecção.


Assim como Braga em Matosinhos… Kuyt em Liverpool

Novembro 17, 2008

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Bruno Manuel Araújo Braga, 25 anos, 1.81m, 75kg, Ex-Leça da Palmeira. Uma agradável surpresa no ataque leixonense.

 

Estreou-se na presente época, na Primeira Liga, ao serviço do Leixões, tendo marcado presença em todos os jogos do campeonato (completou 499 minutos em 720 possíveis), apontando até ao momento 3 golos. Enquadrado no triangulo ofensivo da equipa, e partindo da faixa, ora para zonas mais interiores, ora sacudindo o jogo da equipa ao longo da lateral, Braga tem sido a meu ver, decisivo para a construção de uma identidade de jogo própria, em Matosinhos. Defensivamente fecha bem, auxilia os homens do miolo, e protege Vasco Fernandes (o lateral direito de serviço – outra agradável surpresa) lendo com precisão as movimentações de Wesley ao centro, e Diogo Valente pelo corredor esquerdo.

 

Fazendo uso de alguma velocidade e facilidade de remate, Braga aparece instintivamente em zonas mais centrais do terreno para visar a baliza. Devido à sua compleição física é tido como um homem para jogar próximo à decisão do golo. Contudo, é aqui que reside a sua mais valia. Não sendo um ala puro, Braga foge ao protótipo comum. O seu centro de gravidade não é baixo, o seu padrão motor não é dinâmico, mas mesmo assim, contrariando as leis da anatomofisiologia, consegue executar rápidas transições para o ataque, mercê da sua passada larga e visão apurada do jogo. Estabelecendo um paralelismo algo excêntrico, diria que Braga está para o Leixões como Dirk Kuyt está para o Liverpool de Rafael Benítez.

 

Dois jogadores, a mesma formula de jogo. Abnegação, poder físico, rapidez de execução, remate fácil e leitura táctica assinalável. Uma comparação pertinente. Apesar de em Portugal não se jogar com a intensidade da PremierShip, sempre que ponho os olhos em Braga e assisto à sua simplificação de processos, ao evoluir da sua performance em campo, lembro-me das actuações do holandês em Anfield Road. Lanço-vos o desafio. Estabeleçam o paralelismo.