Cícero e Santana Carlos – a obrigação de encontrar o golo

Janeiro 15, 2009

cicero

Nos mandamentos do futebol, ordena-se que a construção da equipa surja de trás para a frente. Defender bem para atacar melhor. Destruir, segurar, subir saindo a jogar. Avançar para o golo, a única certeza do futebol. Depois? Correr para o abraço, erguer a bancada, soltar a loucura. Na procura desse pressuposto religioso estariam Roberto ou Jean Coral do Vitória de Guimarães. Lutam, desdobram-se, deixam a pele em campo mas o golo vira-lhes as costas a cada investida às redes. Não basta parecer matador, é preciso sê-lo de facto. E um clube com a dimensão do Vitória não pode dar-se ao luxo de se divorciar do golo. De viver de aparências.

Seguem-se Cícero e Santana Carlos na procura do golo. O primeiro é forte, explosivo e tecnicista q.b. Vai trazer mobilidade à equipa e capacidade de criar jogo ofensivo. Contudo não creio que Cajuda altere a estrutura táctica que explana a sua equipa em campo. O Vitória joga para um único ponta de lança. Duvido que Cícero se encaixe nesse papel solitário. Seria fugir aos seus princípios de jogo expondo-o em demasia na difícil relação com o golo.

Santana Carlos, angolano de 25 anos proveniente do Petro de Luanda, respirará seguramente melhor que Cícero dentro da área. São os números que o dizem. Na última época no Girabola, Santana fez 20 golos que ajudaram o Petro de Luanda de Bernardino Pedroto a conquistar o 14º Campeonato Nacional. Dir-me-ão que os níveis de intensidade e a qualidade da competição não são comparáveis aos ritmos europeus. Eu remeto-me para as declarações de Klaas-Jan Huntelaar aquando da sua chegada a Madrid – “Quem marca numa Liga, marca em qualquer lado”. Não poderia estar mais de acordo. Quem tem feeling para o golo, tem-no em qualquer campo.

Duas filosofias distintas na abordagem ao golo. Elaborando-o no primeiro caso. Selando-o no segundo.

 


Nenê, protótipo do avançado moderno

Janeiro 8, 2009

nene5De perfeito desconhecido a revelação da Liga Sagres foi um passo. Treze jornadas depois, Anderson Miguel da Silva – Nenê, na praça futebolística –  parece já ter ascendido ao patamar de ‘confirmação’, assumindo-se como um dos mais letais avançados no primeiro escalão do futebol nacional. Na Liga, ao serviço do Nacional da Madeira, o brasileiro, oriundo do Ipatinga, já apontou sete golos, tendo participado em 12 dos 13 jogos já disputados – esteve ausente na última jornada, onde os madeirenses perderam com o Porto, por 4-2, na Choupana.

Detentor da vice-liderança na tabela dos melhores marcadores do campeonato nacional, Nenê assume-se como um dos grandes favoritos à conquista da Bola de Prata. Atendendo à lesão prolongada do ‘artilheiro-líder’ William – o avançado do Paços de Ferreira, que contabiliza oito golos, enfrenta uma paragem de meses – o goleador do Nacional terá de bater-se com os consagrados Wesley, Meyong, Liedson, Cardozo ou Lisandro. Mas, pelo que já mostrou neste primeiro terço da liga, acredito que Nenê poderá levantar o galardão.

Recorro aos seus dois golos na vitória do Nacional, por 4-2, sobre o Belenenses, na 11.ª jornada, e solidifico a minha profecia. Nesse jogo, Nenê demonstrou atributos que compõem o avançado moderno. Em resposta a um livre de Juninho, o goleador salta ensanduichado entre dois defesas azuis e com um primoroso gesto técnico cabeceia a bola por cima do guardião Júlio César. Qual cabeceador exímio… Está feito o primeiro tento da partida. Pouco depois, Nenê larga o céu e desce à terra. Descola na asa direita do ataque nacionalista, ainda longe da grande-área, e de passada larga, postura elegante, tipo velocista, galga terreno até à descarga final da pólvora seca. Fez-me lembrar Claudio López, na Lázio de Roma…há uns anos.

Mas, mais surpreendido fiquei, quando, ontem, vi Nenê marcar um potente golo num livre directo, que deu o empate frente à Académica de Coimbra, num jogo a contar para a primeira jornada do Grupo A da Taça da Liga. Afinal, o homem também marca de bola parada! Um verdadeiro achado! Não deixem que ele volte para o Brasil.


Vitória de Setúbal – A dificuldade na construção de jogo

Janeiro 8, 2009

Daúto FaquiráDaúto Faquirá vive dias conturbados em Setúbal. O Vitória ocupa o 14ºposto, a um ponto da zona de despromoção e o conjunto vitoriano tarda em encontrar-se. O seu 4-2-3-1 não tem correspondido às exigências, a equipa nunca ganhou fora de portas e em casa já avolumou quanto derrotas em sete partidas. No ataque o saldo é revelador. Sete golos em treze encontros. Mora em Setúbal a equipa menos concretizadora da Liga Portuguesa.

Tendo como premissa inabalável, as competências técnico-tácticas, que provou num passado recente, possuir, Daúto tem-se esforçado por traduzir em campo as movimentações que desenha no papel. O Vitória espraia-se em campo com uma linha de quatro defensores à frente do renascido Bruno Vale ou de Pedro Alves. Janício e Cissokho, altos e fisicamente possantes procuram esticar o jogo da equipa pelas alas. Se o cabo-verdiano é hoje um jogador relativamente completo, Cissokho procura ainda fugir da timidez. Mostra alguma agressividade com bola e é certinho a fechar. No centro, Anderson trouxe mais velocidade ao eixo. Juntamente com Robson formam uma dupla de centrais credível que procura empurrar a equipa, forçando-a a jogar mais subida no terreno.

À frente dos centrais, na primeira fase de construção do jogo setubalense, a deficiente transição para o ataque compromete as etapas seguintes. A experiente dupla de pivots defensivos, formada por Sandro e Ricardo Chaves não possui aquele toque de bola que transmita segurança no passe ou no transporte, deixando o trio que actua à sua frente, desmembrado e desligado entre si. Sandro fecha bem, preenche bem os espaços mas é demasiado posicional. Por sua vez, Ricardo Chaves surge a seu lado, não trazendo algo que realmente complemente a identidade de Sandro. É mais vertical e procura “carrilar” o jogo até à linha seguinte, mas falta-lhe algo que não se lhe pode exigir. Pedir-lhe segurança e visão de jogo digna de um moderno pivot defensivo.

Mais à frente surge alguma criatividade. Bruno Gama com bola é o fantasista. Posicionalmente, o seu jogo flui da ala para o centro em repetidas diagonais. Não tem medo de ter bola e de errar. Sem bola perde-se nas deficientes transições defensivas que efectua, e deixa a sua faixa demasiado exposta. No flanco oposto tem surgido Elias. Mais voluntário e abnegado ao choque que Leandro Lima, menos poder de imprevisibilidade e capacidade de resolver no um para um. Mateus, o estratega pauta o jogo ofensivo. Tem bons pés e faz a equipa respirar quando lhe é concedido espaço. É porventura o único jogador da equipa capaz de ter bola, de segurar para esperar pelo apoio, de fazer crescer a equipa em campo, dando-lhe personalidade. Joga de cabeça levantada fazendo girar a equipa em seu redor.

Na frente, Daúto tem apostado em Laionel. Carente de opções que entendam as movimentações e a leitura de que vem de trás, Laionel tem sido o menos mau. Falta poder de fogo a este Vitória. Instinto fatal. Carrijo traz poder físico, segura bem a bola e impõe-se à marcação. Por outro lado é demasiado fixo para conectar a “ficha” do seu futebol à ligação que se encontra distante no meio campo. Saleiro não se impôs e a equipa está órfã de uma referência no ataque. Um mal que se estende a mais equipas na Liga.

O tempo passa e Daúto tenta retalhar a manta com as linhas que se tem cozido. Refazer o duplo pivot defensivo seria porventura uma opção, jogando apenas com um trinco, e fazendo recuar em campo Mateus para a primeira zona de construção, reformulando-o enquanto jogador, dando mais consistência à saída de bola do Vitória. O experiente Bruno Ribeiro poderia também trazer algo à equipa jogando por dentro no corredor esquerdo, dando condições a Cissokho, para que este desse mais profundidade ao seu flanco. Mas ninguém melhor que o treinador moçambicano para perceber as afinações tácticas que a equipa precisa.