Vitória de Setúbal – A dificuldade na construção de jogo

Janeiro 8, 2009

Daúto FaquiráDaúto Faquirá vive dias conturbados em Setúbal. O Vitória ocupa o 14ºposto, a um ponto da zona de despromoção e o conjunto vitoriano tarda em encontrar-se. O seu 4-2-3-1 não tem correspondido às exigências, a equipa nunca ganhou fora de portas e em casa já avolumou quanto derrotas em sete partidas. No ataque o saldo é revelador. Sete golos em treze encontros. Mora em Setúbal a equipa menos concretizadora da Liga Portuguesa.

Tendo como premissa inabalável, as competências técnico-tácticas, que provou num passado recente, possuir, Daúto tem-se esforçado por traduzir em campo as movimentações que desenha no papel. O Vitória espraia-se em campo com uma linha de quatro defensores à frente do renascido Bruno Vale ou de Pedro Alves. Janício e Cissokho, altos e fisicamente possantes procuram esticar o jogo da equipa pelas alas. Se o cabo-verdiano é hoje um jogador relativamente completo, Cissokho procura ainda fugir da timidez. Mostra alguma agressividade com bola e é certinho a fechar. No centro, Anderson trouxe mais velocidade ao eixo. Juntamente com Robson formam uma dupla de centrais credível que procura empurrar a equipa, forçando-a a jogar mais subida no terreno.

À frente dos centrais, na primeira fase de construção do jogo setubalense, a deficiente transição para o ataque compromete as etapas seguintes. A experiente dupla de pivots defensivos, formada por Sandro e Ricardo Chaves não possui aquele toque de bola que transmita segurança no passe ou no transporte, deixando o trio que actua à sua frente, desmembrado e desligado entre si. Sandro fecha bem, preenche bem os espaços mas é demasiado posicional. Por sua vez, Ricardo Chaves surge a seu lado, não trazendo algo que realmente complemente a identidade de Sandro. É mais vertical e procura “carrilar” o jogo até à linha seguinte, mas falta-lhe algo que não se lhe pode exigir. Pedir-lhe segurança e visão de jogo digna de um moderno pivot defensivo.

Mais à frente surge alguma criatividade. Bruno Gama com bola é o fantasista. Posicionalmente, o seu jogo flui da ala para o centro em repetidas diagonais. Não tem medo de ter bola e de errar. Sem bola perde-se nas deficientes transições defensivas que efectua, e deixa a sua faixa demasiado exposta. No flanco oposto tem surgido Elias. Mais voluntário e abnegado ao choque que Leandro Lima, menos poder de imprevisibilidade e capacidade de resolver no um para um. Mateus, o estratega pauta o jogo ofensivo. Tem bons pés e faz a equipa respirar quando lhe é concedido espaço. É porventura o único jogador da equipa capaz de ter bola, de segurar para esperar pelo apoio, de fazer crescer a equipa em campo, dando-lhe personalidade. Joga de cabeça levantada fazendo girar a equipa em seu redor.

Na frente, Daúto tem apostado em Laionel. Carente de opções que entendam as movimentações e a leitura de que vem de trás, Laionel tem sido o menos mau. Falta poder de fogo a este Vitória. Instinto fatal. Carrijo traz poder físico, segura bem a bola e impõe-se à marcação. Por outro lado é demasiado fixo para conectar a “ficha” do seu futebol à ligação que se encontra distante no meio campo. Saleiro não se impôs e a equipa está órfã de uma referência no ataque. Um mal que se estende a mais equipas na Liga.

O tempo passa e Daúto tenta retalhar a manta com as linhas que se tem cozido. Refazer o duplo pivot defensivo seria porventura uma opção, jogando apenas com um trinco, e fazendo recuar em campo Mateus para a primeira zona de construção, reformulando-o enquanto jogador, dando mais consistência à saída de bola do Vitória. O experiente Bruno Ribeiro poderia também trazer algo à equipa jogando por dentro no corredor esquerdo, dando condições a Cissokho, para que este desse mais profundidade ao seu flanco. Mas ninguém melhor que o treinador moçambicano para perceber as afinações tácticas que a equipa precisa.       


Será desta Jesualdo?

Dezembro 19, 2008

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O FC Porto ficou hoje a conhecer o adversário nos oitavos-de-final da presente edição da Liga dos Campeões – o estreante Atlético Madrid, de Simão, Maniche, Assunção e uns tantos mais (Aguero e Forlan à cabeça). Difícil? Sim. Superável? Claramente, se a máquina olear. Com Rodriguez, Lisandro e Hulk cada vez mais entrosados nas  movimentações, trocas e deambulações, uma verdadeira avalancha de ataque cairá por cima da defesa colchonera.

Ontem, no âmbito das comemorações natalícias do FC Porto, o professor Jesualdo, ainda antes de conhecer o sorteio desta manhã, veio a ‘terreiro’ dizer que a sua equipa é ainda muito inexperiente na Liga dos Campeões e, como tal, é arriscado almejar por uma longa campanha na competição. O técnico ressalvou, no entanto, que possui cinco ou seis jogadores com maturidade na Champions – Helton, Pedro Emanuel, Bruno Alves, Raúl Meireles, Lucho e Lisandro, essencialmente.

Lá no íntimo, Jesualdo acredita que desta feita, naquela que é a sua terceira presença na liga milionária, a passagem aos quartos-de-final será muito mais do que uma miragem. Depois de verem sonhos angustiosamente  gorados ante Chelsea (2006 – 2007) e Schalke 04 (2007 – 2008), nos oitavos-de-final, os tricampeões nacionais partem com dose de favoritismo perante um menos experiente Atlético Madrid. Mas, será Jesualdo capaz de afastar o fantasma das duas épocas anteriores, sobretudo a eliminação com o Shalke 04, um adversário teoricamente ao alcance dos portistas?

Esta eliminatória com o Atlético Madrid será mesmo o grande teste de Jesualdo Ferreira para renovar o período europeu do FC Porto pós-Mourinho. Foi com o Special One ao leme que os azuis e brancos ultrapassaram, pela última vez, os oitavos-de-final da Liga dos Campeões – deixaram para trás o Manchester United e só pararam com a taça na mão, em Gelsenkirchen, depois de baterem o Mónaco.

Recordemos o ‘onze’ titular que subiu ao relvado de Old Traford, para empatar (1-1) com o Man. United, e assim afastar a formação britânica nos oitavos-de-final da Champions 2003-2004. Guarda-redes: Vitor Baía; Defesas: Paulo Ferreira, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, Nuno Valente; Médios: Costinha, Maniche, Alenitchev e Deco; Avançados: Carlos Alberto e Benny McCarthy.

Façamos agora um esboço da possível equipa que o professor apresentará para enfrentar o Atlético, ressalvando as possíveis lesões ou variações de forma até  finais de Fevereiro. Guarda – redes: Helton; Defesas: Fucile, Rolando, Bruno Alves, Pedro Emanuel; Médios: Fernando, Raúl Meireles, Lucho e Rodriguez; Avançados: Lisando e Hulk.

Num próximo post, tentarei ver semelhanças e diferenças entre estas duas equipas do FC Porto, de Mourinho e Jesualdo.

 


Atlético de Madrid – Movimentando-se defensivamente em 4-4-2 clássico

Setembro 19, 2008

Gostei da exibição do Atlético Madrid neste seu regresso á elite dos campeões. Na estreia, coube-lhe a árdua tarefa de se impor num terreno complicadíssimo para quem o visita, o Philips Stadium.

 

O mexicano Javier Aguirre pelo que tenho visto, mantém-se fiel a um 4-4-2 puro de asas bem abertas, digamos que a variante base deste modelo de jogo. Muito se discute se é possível nos dias que correm, (onde as equipas cada vez mais apetrecham o meio-campo com varias unidades na tentativa de segurar as rédeas do jogo), que uma formação se apresente apenas com dois homens no centro das operações. A chave para derrubar o classicismo deste esquema táctico reside a meu ver, em duas possíveis nuances. Os dois médios centro têm de ser tacticamente exemplares, e fisicamente disponíveis para aguentar a intensidade e o volume de jogo, sendo que um deles terá de se posicionar mais próximo da linha defensiva. E os alas tem de se voluntariar constantemente na ocupação de espaços quer no corredor interior, quer no extenuante auxilio aos seus laterais. Com esta dinâmica de movimentação defensiva, o quarteto encurta espaços, fecha linhas de passe e resguarda o ultimo sector.

 

Ora não é fácil encontrar alas que o saibam fazer, e acima de tudo que estejam dispostos a tanto sacrifício. Talvez por isso Simão tenha arrumado com a concorrência no Atlético de Madrid. Não é tão virtuoso e malabarista como um Reyes ou até mesmo um Cléber Santana mas é muito mais do que isso. É garantia que é o primeiro defensor do seu flanco e o primeiro a jogar para a equipa. Parte para o individualismo como recurso e por isso se vem afirmando na extrema-esquerda. Na direita fecha Maxi Rodriguez ou Luís Garcia. No meio está o pêndulo Assunção, na “cabeça da área” quando preciso, e o fulgor de Maniche que ora pressiona atrás, ora aparece no espaço vazio para receber mais á frente, dando profundidade na transição ofensiva.

 

Atrás um quarteto denso comandado por Léo Franco : António Lopez e Luís Perea nos corredores, Ujfalusi e Heitinga como pilares no eixo. Lá na frente Aguero e Folan, uma dupla fortíssima.

 

É possível jogar em 4-4-2 clássico. O procurado sucesso advém da dinâmica que os seus intérpretes lhe dão, e o Atleti é um bom exemplo disso, como já foi há algum tempo o Valência de Cúper ou de Benitez.


SP. Braga e Jorge Jesus – a filosofia de um golo

Setembro 5, 2008

“Não altero o modelo em função do adversário”. É este o busílis da questão, o paradigma a que Jorge Jesus se agarra e que melhor define o seu perfil. Na verdade, esse mesmo modelo, tem vindo a ser solidificado, sobretudo, desde o tempo de experimentação e maturação no tubo de ensaios do Restelo. Tem trabalhado metodicamente a raiz do seu 4-4-2 losango, o seu sistema táctico por excelência e as respectivas dinâmicas de movimentação, que o fazem emergir para o jogo. Discípulo do futebol atractivo, feroz, de ataque premeditado ás redes, o timoneiro de Braga mantém-se fiel aos seus princípios, defender bem para atacar melhor.

 

Em Braga mora um plantel homogéneo, recheado de potencial e de pelo menos duas opções para cada posição. Confesso que ambicioso como sou, por ver clubes de média expressão darem o grito do Ipiranga, para bem da competição interna, vejo nesta equipa gestão e estrutura para se assumir no panorama nacional, como alternativa válida ás tradicionais lides de campeonato.

 

Nas quatro linhas Jorge Jesus espraia a amplitude do seu losango, encurtando terreno defensiva e ofensivamente. Na baliza uma confirmação, Eduardo, muito provavelmente a maior certeza pós-Quim na selecção nacional. Nas laterais, João Pereira em claro crescimento futebolístico (apesar da imaturidade psíquica que ainda o atormenta) faz todo o corredor sempre a fundo. No outro flanco, Evaldo, mais físico, menos afoito com a bola, procura equilibrar a equipa posicionalmente. No eixo, reside um Rodriguez imbuído no espírito arcebispo. Combativo, lesto e forte nas alturas, alia-se a Moisés que mercê mais da vontade do que do engenho, lá vai ganhando o seu espaço. 

 

No meio está a virtude, o carrossel ofensivo que embala a equipa e fomenta a filosofia do golo. O turbilhão de emoções sacudido pelos pés do trio que tem por missão jogar e fazer jogar. Com um único pivot defensivo na retaguarda, previsivelmente Frechaut ou Andrés Madrid, o meio-campo ganha asas e cava os pormenores que definem a diferença no marcador. Com Alan na meia direita, César Peixoto ou Matheus sobre a esquerda e o uruguaio Luís Aguiar como estratega puro, este Braga ganha contornos de malvadez ofensiva, lançando-se para o golo de cartucho cheio. Na conclusão avista-se Linz e Meyong com Paulo César apto a intrometer-se. O primeiro mais ponta-de-lança, o segundo mais “bom de bola”, móvel e dado ao choque, o terceiro mais rápido e letal. Há ainda Renteria, Vandinho, Stélvio, Wender ou Mossoró, peças de primeira linha que revestem o plantel com detalhes de equipa grande.

 

São estes pequenos traços que fazem com que siga de perto o escrutínio do treinador minhoto. Olhos postos na baliza do adversário, bola teleguiada de flanco a flanco, bola á flor da relva, bola no espaço vazio, bloco subido encostando o oponente ás cordas, bloco da autoria de Jorge Jesus. Domina os conceitos tácticos do jogo, aplica-lhes o cunho do seu teor psicológico e escolhe á pinça os intérpretes que o fazem rolar. Como ele próprio diz, não faz “nada de especial”, apenas “escolhe os melhores para cada posição”. O futebol na batuta de quem entende a sua pureza e a conserva. Um caso a seguir com atenção durante a Liga.

 

 


Onde pára a squadra azzurra?

Junho 12, 2008

Sofrível. Confrangedora.  Irreconhecível. Adjectivos que definem a estreia da Itália no Euro 2008. Quereria Donadoni repetir a receita que a squadra azzurra utilizara perante uma outra Holanda – igualmente estética, mas menos pragmática – na meia-final do Euro 2000, onde os transalpinos resguardaram-se no último terço do terreno, jogando meramente no erro do adversário? Nesse embate,  os actuais campeões do mundo acabaram por ganhar nas grandes penalidades. Aqui não havia penaltys, mas talvez o empate até não fosse mau de digerir para Buffon, Pirlo, Toni & Companhia.

Quando pensamos na squadra azzurra, vem-nos imediatamente à cabeça a ideia de um forte revestido de uma densa muralha formada de peões azuis. Baresi, Madini, Canavarro, Panucci, Nesta, Pessotto, Zambrotta na linha defensiva; Albertini, Dino Baggio, Christian Zanetti, Di Biaggio, Pirlo, Gattuso, Ambrosini, Perrotta na intermediária. Todos eles referências e intérpretes na perfeição do tão proclamado e contestado cattenaccio. Roberto Baggio, Totti ou Del Piero davam a porção mágica; Singori, Vieri ou Inzaghi faziam chegar o gélido veneno às balizas contrárias. Mas onde pára a squadra azzurra?

Panucci, Zambrotta, Pirlo, Ambrosini, Gattuso e Del Piero – este apenas na parte final da batalha – lá estiveram, na passada segunda-feira, vergados à humilhação imposta pela renovada ‘laranja mecânica’. Tristes, apáticos e carregados de um cattenaccio demasiado pesado de transportar como estigma. Perfeitamente sabedores e conscientes de que a famosa estratégia não se faz sem artistas de porção mágica, Pirlo e os outros foram esperando que o velho e o recente passado pairassem por um qualquer miraculoso instante. Mas sem Baggio, Totti ou o Del Piero, os holandeses apenas apressaram o tempo. Numa equipa titular com apenas três jogadores de cariz ofensivo – não que isso fosse algo de novo nas selecções italianas -, onde estava o artista? Di Natale? Não é, nem será, certamente, ele que terá a varinha de condão. Camoranesi? Decididamente, não. E Toni? A esse pede-se-lhe que liberte o veneno. Mas, ainda assim, quem não tem saudades do ‘letal’ Inzaghi ou do possante Vieri?

Artista? Só Pirlo. Mas o pivot milanês, preso a marcações, raras as vezes conseguiu chegar às imediações da área contrária para executar, como ele sabe na perfeição, o último passe – à semelhança daquele ‘toque’ de Iniesta para o segundo golo da Espanha e de Villa na vitória de nuestros hermanos contra a Rússia.

O que fazer então? Restará a Donadoni resgatar o ‘veterano’ Del Piero para o onze inicial, em detrimento do inconsistente Camoranesi. Juntar o criativo da vecchia signora a Di Natale, a fim de dar apoio, nas costas, ao desamparado Toni. E com a saída de Camoranesi, exigir aos laterais que subam mais e criem desequilíbrios no meio-campo adversário. De um lado Zambrotta, do outro Grosso. Pannuci já não pertence a este forte.

Sem os míticos Cannavarro e Nesta, caberá, inevitavelmente, ao malfadado Matterazi liderar a defensiva, claro está, com a voz de comando e a presença intimidadora de Buffon atrás. 

Devolvam Del Piero à squadra. Ele tem a porção mágica. 

 

 


Equipa UEFA 2007

Dezembro 19, 2007

É do conhecimento geral que decorre já há alguns dias a votação no site da Uefa, para a eleição do “11 do ano” e do seu respectivo treinador. Confesso que entre os 60 nomeados, as escolhas surgem de um modo deveras previsível, arriscando-me a dizer que exceptuando káká ou mesmo Cristiano Ronaldo, ninguém porventura terá realizado um 2007 plenamente satisfatório. Por outro lado constam nomes na lista que me deixam abismado. Aguardo impacientemente que me explicitem os critérios para a sua convocatória em detrimento de outros que incompreensivelmente não pontificam nas opções.   

Polémicas à parte, aqui fica “o onze”, que na minha opinião, melhor performance obteve este ano.

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Guarda-Redes: Edwin Van der Sar. (De todas as opções parece-me a mais ajustada. O holandês de registo “low profile”, não encanta pela excentricidade que muitas vezes se clama na sua posição, mas assegura a tranquilidade necessária à defensiva do Manchester. Em 2007 foi pedra fundamental no reerguer do United rumo ao titulo. Esta época continua a exibir-se a um excelente nível. É a prova que uma carreira de sucesso se faz com perseverança, mesmo quando se passam épocas a fio na sombra, longe dos grandes palcos.)

Defesa-direito: Javier Zanetti (Reflecti entre Daniel Alves e o argentino. O primeiro confirmou o seu elevado potencial, acompanhando toda a ascensão do Sevilha, seria uma boa escolha. Mas penso que está na hora de atribuir a Zanetti o titulo individual que persegue há anos. É daqueles casos de vitalidade arrepiante. Sempre no mesmo estilo, na mesma toada, veloz, combativo, intenso, “um osso duro de roer” a atacar e a defender. É actualmente o atleta argentino com mais internacionalizações, e ninguém mais do que ele, merecia o sucesso no Inter de Milão. É a minha escolha)

Defesas-centrais: Rio Ferdinand (Pedra basilar na estrutura defensiva dos “red devils”, foi o comandante que Alex Ferguson precisava de encontrar em campo, na conquista do último campeonato. A sua voz de comando, põe em alerta o ultimo reduto do United. É rápido, tem elevado poder de choque, joga simples e no jogo aéreo é fortíssimo nas duas áreas. Fecha 2007 tal e qual como começou, na liderança da equipa de Cristiano Ronaldo.)  

Paolo Maldini (Seria lógico e legitimo escolher Ricardo Carvalho ou Nesta que estiveram muito bem, mas a minha escolha recai neste “dinossauro” do futebol moderno. Não sei o que escrever, os adjectivos esfumam-se quando me lembro da carreira deste senhor, porventura o maior ícone defensivo na ultima vintena de anos. Em 2007 e pelo 23ºano consecutivo envergou a camisola do Milan e carimbou mais uma conquista da “Champions League” sendo eleito o melhor defesa da prova. Individualmente não terá já as capacidades de outros centrais de renome, mas a força, a mística e a experiencia que empresta aos “rossoneri”, embalam a minha escolha. Um prémio de carreira, mais um.)

Defesa-esquerdo: Eric Abidal (Após a afirmação do seu futebol no Lyon, o francês consolidou o seu estatuto no Barcelona e caminha lentamente para os patamares exibicionais que o notabilizaram em França. É rápido, não evita o confronto com o oponente directo, tem um bom pé esquerdo, e é equilibrado em termos ofensivos, resguardando o flanco sempre que necessário. Um valor seguro do futebol mundial.)

Medio-Direito: Cristiano Ronaldo (Comentários para que? Este miúdo nasceu para o que faz, arrasa os adversários, põe ao rubro as bancadas, agita os corações. Em 2007 selou mais um ano de ouro, marcando golos decisivos, galopando por todo o terreno, ratificando o conceito de futebol total. A par de Káká tem tudo para ser o melhor do mundo durante alguns anos.)

Medio-Centro: Andrea Pirlo (Um dos jogadores mais finos e requintados do futebol mundial. O exemplo cabal de que não é necessário correr mais do que o necessário para estar em todo o lado. Pirlo só sabe jogar bem, e fá-lo com um critério inigualável. Magistral no passe, certeiro no remate, despido de extravagância, Pirlo “cabe” em qualquer equipa deste planeta.

Medio-Ofensivo: Káká (O melhor jogador do mundo. Inquestionávelmente. A regularidade exibicional do brasileiro não está ao alcance dos terrestres. É sempre o mais rápido a chegar a bola e a conduzi-la, “atropela” e “desmonta” qualquer adversário, dos seus pés urgem tiros de canhão, um verdadeiro atleta. A arte acorda, aninha-se e adormece aos pés de Káká. O samba ao serviço do colectivo do Milan.

Medio-Esquerdo: Clarence Seedorf (Um predestinado à moda do vinho do porto. À medida que envelhece, vai aprimorando os seus dotes. É fortíssimo no choque directo, joga e faz jogar, surge como uma flecha envenenada à entrada da área para desfeitear as redes adversárias. A cultura do seu jogo e o modo como lê cada transição ofensiva, revelam a sensibilidade que possui na decisão de entregar o esférico. Um profissional por excelência que em 2007 confirmou tudo o que se esperava dele. Um órgão vital do campeão europeu.

Avançados: Kanouté: (Um ano para mais tarde recordar. Foi o abono de família que o Sevilha precisava para alcançar a glória novamente na Taça Uefa e a estabilidade competitiva no campeonato. Conquistas e respeito por essa Europa fora, tudo com a assinatura do ponta de lança do Mali. Um verdadeiro manual de como se actuar nos últimos metros de terreno. Não vacila na hora da concretização. Pelo ar, pelo chão, de primeira ou em drible, Kanouté conquistou a Europa em 2007.)

Didier Drogba: (Na minha opinião o melhor ponta de lança da actualidade no futebol mundial. Um professor a jogar de costas para a baliza, protege a bola como poucos, esmaga a concorrência na disputa de bolas aéreas, nunca dá um lance por perdido, é ágil, precipita o pensamento actuando um décimo antes da previsão, fuzila a baliza sem autorização, de qualquer ponto do relvado. O modelo de inspiração para todos os aspirantes a goleadores. A continuar com esta performance sujeita-se a ter de puxar de uma cadeira, e sentar-se confortavelmente, à espera que o derrubem do onze da Europa.)

Treinador: Ancelotti (Escolha muito complicada. Mas o trunfo de Ancelloti falou mais alto na hora da decisão. E que trunfo. Em 2007 conquistou a “Champions” batendo o Liverpool, e pouco depois amealhou a Super Taça Europeia, desta feita impondo-se frente ao Sevilha. De estilo conservador, prático, onde a cautela é a sua melhor companhia, Ancelotti orquestrou um grupo compacto e homogéneo, à sua imagem. O A.C Milan subverte a nova cultura do futebol de alto rendimento que dita o afastamento dos trintões. Em San Siro a historia é outra, o treinador também. O núcleo da equipa faz-se de experiencia, sabedoria e muitos quilómetros de futebol. A irreverência inibe-se em detrimento do trivial, a vitória.  


Belenenses, o “carrossel” de Jesus

Dezembro 18, 2007

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Jorge Jesus parece ter encontrado em Belém a estabilidade que precisava para transcrever do bloco de notas para o relvado, a teorização do seu futebol, que muitas vezes definhara em projectos anteriores, vítima da falta de tempo, que o tempo não sabe dar, e porque não, de uma maturidade ainda “adolescente” e precoce.

 

A vida guarda muitas vezes o melhor para perto do fim. Jesus ainda está longe do fim. Mas os erros cometidos no passado, os desaires e as opções erradas, dotaram o líder do Restelo de maior capacidade analítica e poder de decisão. Com base num método quase que indutivo-experimental, de constante procura e eliminação do erro, Jesus chega a Belém com o caderno passado a limpo, folhas esquematizadas e sucintas, clareza de ideias, a vertente táctica do jogo no primeiro capítulo. Eis o manual do comandante da Cruz de Cristo, que reconciliou o clube com os adeptos, ressuscitou a paixão pelo futebol, há muito petrificada, trouxe-lhe identidade, impulsionou-o para a primeira metade da tabela. 

 

Hoje, o Belenenses dentro de campo é a personalização teórico-prática dos mandamentos de Jesus. Defender bem anulando as movimentações chave do adversário, baixando a linha do meio campo sem a posse de bola, dando cobertura ao último reduto, mantendo a defesa profunda; Executar a transição ofensiva o quanto antes, e paradoxalmente sem queimar processos, passando a “obra” pelos “artesãos” do centro do terreno, entregando as alas quase que exclusivamente aos laterais; Pressionar o adversário na primeira fase de construção de jogo, funcionando os homens mais adiantados como os primeiros escudos da torre de Belém.

 

Na baliza, Costinha é a primeira opção, apesar da sombra do sempre útil Marco Gonçalves. O experiente guarda-redes português atravessa um bom período na sua carreira e é uma das chaves da equipa.

 

Na defesa um quarteto base, Cândido Costa (com Amaral a meias), Rolando, Hugo Alcântara e Rodrigo Alvim. Os laterais (Cândido e Alvim) dão largura ao jogo da equipa. Ambos sobem muito bem no flanco, alternadamente, não descompensado o sector mais recuado. Se Cândido Costa em termos atacantes é um precioso auxilio quando ganha a linha, Rodrigo Alvim é um autentico todo o terreno, esgotando as energias que dispõe em desenfreadas acelerações “coast to coast” sem grandes malabarismos mais em força do que em técnica, nunca virando a cara à luta. Rolando e Hugo Alcântara, centrais posicionais, fortes no jogo aéreo, impõem-se pelo físico, e resguardam-se da falta de volocidade de que padecem, encurtando as distancias para a sua baliza.

 

No meio-campo, espaço para o carrossel de Jesus. Os equilíbrios são mantidos com Gómez mais recuado, sendo directamente coadjuvado por Ruben Amorim, os operários de serviço. Gómez, contido em termos ofensivos, espelha um futebol racional, de boa ocupação de espaços, procurando libertar a bola sempre jogável, não arriscando passes de ruptura. É a balança da equipa. Ruben Amorim, a engrenagem do carrossel, actua um pouco mais liberto oscilando horizontalmente entre as proximidades dos flancos, sendo o primeiro verdadeiro pensador da equipa. Da sua área de jurisdição sai a transição para o ataque.  Silas e José Pedro, os cérebros da equipa. O primeiro jogando de dentro para fora, ou municiando as acelerações de Roncatto e de Welton nas costas da defesa contrária. José Pedro, pé esquerdo refinadíssimo, actua descaindo nos flancos, procurando libertar-se do turbilhão de oponentes que se acumula no centro, abrindo uma brecha para os seus tiros fulminantes, “embrulhando” com requinte assistências, ou inventando espaços para colocar os “matadadores” de serviço na “cara do golo”. Hugo Leal e novamente Cândido Costa completam o lote de principais opções para o meio-campo.

 

Na linha da frente, Roncatto e Welton, a artilharia da equipa. A esperança do golo. Rapidez de execução, desinibição na hora de assumir a responsabilidade, a pincelada de tom colorido na rigidez táctica de Jesus. João Paulo complementa-os, traz pujança física e presença lá na frente. Uma alternativa à dupla.