Neca – Viver Ancara, ser Ankaraspor

Dezembro 29, 2008

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   Viver longe da família, dos amigos, dos costumes enraizados no sangue, do café escaldado no Café que se estende ao fundo da rua, nunca será fácil. Somos seres com urgentes necessidades sociais e torcemos o nariz à necessidade de virar a vida do avesso. No futebol as oportunidades são escassas e a casa segue forçosamente no fundo da mala de viagem. A busca pelo sucesso faz-se de cidade em cidade, de país em país, de cultura em cultura. Foi esse o caso de Neca que após quase uma década a espalhar o perfume do seu futebol pelos relvados da Liga Portuguesa, (ao serviço do “seu” Belenenses, do Vitória de Guimarães e do Marítimo) decidiu arriscar a sua sorte no campeonato turco. A equipa do Konyaspor acolheu o atleta. O atleta arrastou consigo o outro lado de si. O cidadão português à descoberta do desconhecido. O atleta procurou rapidamente adaptar-se ao futebol local. O cidadão sentiu dificuldades em enquadrar-se no quadro social que o rodeava. Hábitos religiosos que se sobrepunham a tudo o resto, poucos locais de lazer. O cheiro e o desassossego da cultura ocidental eram estranhos a Meram Konya.

 

Na época de 2007-08 tudo cambia. Ancara, a cosmopolita capital turca clama por Neca. O português acede ao pedido e passa a defender as cores do Ankaraspor, clube local. De repente tudo se conjuga. Atleta e cidadão perfeitamente adaptados. O resultado desse reencontro de vontades expressa-se em campo. Na presente época e decorridos que estão 16 jogos, Neca participou em 11 encontros e apontou 4 golos, um deles recentemente, numa soberba vitoria por 3-1 no terreno do Besiktas. O português trouxe à equipa aquilo que sempre o caracterizou. Excelente toque de bola, boa meia distancia, esclarecimento no transporte de jogo, técnica apurada, bom sentido de jogo colectivo. O mesmo Neca que se iniciou no Belenenses, a mesma irreverência, embora mais refinado e amadurecido. Um habitué no onze do team turco.

 

A equipa encontra-se em quinto lugar, a escassos quatro pontos do líder da tabela, o Sivasspor, e mercê da qualidade que tem o seu plantel, é possível que este ano haja uma surpresa no final do campeonato.  

Iniesta – Relacionar-se com o jogo e não com o golo

Junho 30, 2008

Gostei de ver Iniesta neste Euro 2008. Sou um fiel admirador das características deste box to box espanhol. Porém ao serviço da selecção, raramente conseguiu impor a sociedade que ratificou há já algum tempo com Xavi em Barcelona. Faltou-lhe sempre um vértice mais recuado no meio campo, capaz de perceber as suas movimentações verticais no terreno, capaz de ser o primeiro a recuperar mas também o primeiro a construir, libertando Iniesta de espaços demasiado recuados e impróprios para o seu talento.

 

Nesta revitalizada Espanha, surge um novo peão em campo que desamarra o prodígio catalão para o jogo. A chegada ao onze de Marcos Senna, veio trazer a confiança que Iniesta precisava para segurar o jogo da equipa. Com as costas serenamente resguardadas, Iniesta como poucos, define os tempos de jogo. Cabeça bem levantada, visão periférica. Um olho nas movimentações paralelas de Xavi e outro na referencia do ataque, “el niño” Torres. Pelo meio vai jogando e fazendo jogar. Em três tempos faz a transição. Defensivamente surge num ápice a ocupar o seu reduto. Ofensivamente tira partido da excelente circulação de bola que consegue gerar. É rápido e surge em zona de finalização com muita facilidade. É talvez este o aspecto de jogo que tenha de rever. A sua obsessão por se relacionar com o jogo e não com o golo faz com que perca algumas ocasiões flagrantes para marcar. Na cara do guarda-redes, Iniesta ainda teima em sacudir a responsabilidade do seu capote. Treme na finalização e opta por entregar o destino da bola ao colega mais próximo. Na final contra a rival Alemanha, Iniesta por mais que uma vez, esteve cara a cara com Lehmann. Retirou a pressão de si próprio e procurou um apoio directo para definir o remate letal. São lacunas evidentes no seu jogo mas que de certa forma não assombram outros atributos impares que possui. Nos últimos 30 metros e rodeado por três, quatro adversários, Iniesta tem o dom de desconcertar o momento. Fabrica uma fenda na muralha que o cerca e adorna um passe “redondo” que rasga a ultima linha contrária, isolando qualquer avançado móvel deste planeta. Foi assim na cavalgada do “Barça” rumo á conquista da Champions de 2005-06, e foi assim este ano no Campeonato da Europa.

 

Momentos mágicos protagonizados por quem se relaciona freneticamente com o jogo e nunca com o golo.

 


Dário Conca – Um ultra-leve ao serviço do colectivo

Junho 6, 2008

Dário Conca, 25 anos, 1.67cm e cerca de 60kg. Um ultra-leve argentino a voar pelas alas do meio campo do Fluminense. Oriundo do River Plate, Conca chegou ao brasileirão pelas portas do Vasco da Gama, mas só agora no “Flu”, plenamente adaptado, vai justificando o porquê da sua contratação. Dotado de excelente técnica e sentido de jogo colectivo, o baixinho tricolor arrasa a oposição com arrancadas poderosíssimas que fulminam qualquer tentativa de perseguição. Fisicamente é bastante frágil necessitando por isso de melhorar o seu fraco poder de choque, uma vez que perde fulgor quando é obrigado a disputar um lance dividido. Contudo, para lá da rapidez de execução que possui, Dário Conca é um especialista em lances de bola parada. Um caso a seguir com atenção não só no campeonato brasileiro, mas essencialmente na Libertadores, onde foi peça fulcral na caminhada até á final da competição.   


Ciclos curtos na hierarquia do Futebol Mundial

Fevereiro 23, 2008

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No futebol de top moderno, altamente competitivo e profissional, minado pela máquina da globalização que gera milhões aos cofres dos clubes de referência, os limites dos seus intérpretes, os atletas, peças basilares desse xadrez, estão constantemente a ser derrubados, na tentativa de se superarem as suas próprias capacidades naturais, por forma a corresponderem ao seu papel dentro de campo.

Se fizermos uma retrospectiva à última década, veremos que a designação vulgar de “melhor jogador do mundo” raramente assentou mais que uma, duas épocas consecutivas ao mesmo artista. Ronaldo o “fenómeno” trouxe na década de 90 aos relvados europeus, o verdadeiro conceito “joga bonito”, citando o teaser de uma conhecida marca desportiva americana. O seu fulgor e as suas galopadas alucinantes elevaram os níveis de exigência, não deixando margem de erro aos concorrentes directos. Exigia-se a Ronaldo que fosse o melhor sempre, todos os dias em todos os jogos, em mais um arrancada, em mais um golo exuberante. Ronaldo desistiu. Não soube lidar com a pressão física e psicológica que o estatuto de rei do futebol mundial acarreta. Um ex-médico da selecção canarinha confirmou recentemente que ainda Ronaldo dava os primeiros passos no PSV e já o departamento médico do clube holandês lhe ministrava esteróides anabolizantes para que o prodígio aumentasse a sua musculatura rapidamente. Hoje, o mesmo médico brasileiro realça convictamente que a causa dos infortúnios do avançado se devem a essa mesma pressão a que Ronaldo fora sujeito quando se transferiu para a Europa. São os efeitos colaterais da competição em formato de “guerra”, onde por vezes o preço a pagar para se ser o melhor é demasiado alto.

Mais recentemente o outro Ronaldo, o Gaúcho que no fundo se limitou a dar continuidade ao futebol do compatriota, reinou e dançou ao som do samba fazendo cair sobre si os holofotes da fama. Qualidades semelhantes às do “fenómeno” valeram-lhe o estatuto de rei da bola desde que chegou a Barcelona até à final da Champions com o Arsenal em Maio de 2006. Hoje Ronaldinho é uma sombra de si mesmo, eclipsou-se e perdeu o sorriso que o caracteriza. A bola divorciou-se do 10 catalão.

Agora está Káká por cima com o terceiro Ronaldo à espreita, o português Cristiano. Ambos extremamente profissionais e com brio pelo que fazem. O primeiro mais racional, o segundo mais impulsivo e fantasista. Os “dois mais” do momento. No caso do madeirense é quase impensável que não obtenha a curto prazo o galardão de melhor jogador do planeta. O desafio será manter-se por lá mais tempo que os seus antecessores, ultrapassando os ciclos curtos de durabilidade no topo da pirâmide futebolística, provando que é guerreiro na ascensão mas também na permanência no poleiro. A vida boémia, os contratos publicitários e a pressão serão os seus outsiders. Outros putos maravilha entrarão em cena para roubar-lhe o estatuto. Só nessa altura veremos se Cristiano será apenas o terceiro capítulo da novela “Ronaldo” ou sobreviverá mais do que um par de anos como “chairman” da Companhia de Futebol Mundial. Se o conseguir entrará para a nata das elites olhando de frente para Maradona, Cruyff, Eusébio ou Pélé.


A profecia de Ronaldo

Fevereiro 16, 2008
Ronaldo lesiona-se outra vez

Ronaldo Luís Nazário de Lima, simplesmente “Ronaldo Fenómeno” para os românticos ou “el gordo” para os científicos da bola. A divergência começa onde acaba.

Mais uma fatídica lesão, agora no joelho esquerdo força Ronaldo a parar e a afirmação no Calcio parece ser já uma miragem.

Para uns será recordado como um mago, aquele que trouxe à tona do planeta futebol o recreio por excelência, puxou dos galões e vestiu-se com o talento de Maradona, as arrancadas de Eusébio, ou a fantasia de Pélé. Os nostálgicos viram na presença do “dentuço” uma forma de se renderem ao futebol actual. Ronaldo trouxe-lhes o antigamente, recordou-lhes os génios de outros tempos. O eterno “9” assegurou a rendição dos Velhos do Restelo, nem eles ficariam indiferentes ao que foi a rajada de futebol total que os seus cépticos olhos presenciaram em 96-97, ao serviço do Barcelona. Ao vivo jamais testemunhei tanta inovação, tanto querer e poder. Na retina o golo ao Compostela partindo desde o meio campo desenfreadamente rumo à certeza, a bola na rede. Bobby Robson, outra lenda viva, na altura a comandar os catalães, perde a clarividência, salta do banco e invade o relvado com as mãos na cabeça. Só visto. Ou melhor terá meditado o britânico, nunca antes visto.

Ronaldo jogava à velocidade da luz, tinha mais poder de choque do que qualquer adversário, e com a bola sob alçada do seu pé direito, recriava-se, inventava um novo apontamento, para a miudagem treinar na escola. As célebres “virgulas”, as “pedaladas” por cima do esférico, aquela imaginação na hora de encarar o oponente, um delírio. O fenómeno imprimia uma velocidade acima dos demais. No topo do bolo, a cereja. Um enorme talento para balançar a rede. Tudo misturado nas devidas proporções e o resultado só poderia ser…Ronaldo pois claro, o genuíno e primeiríssimo na dinastia que lhe seguiria as pisadas. 

Contudo no melhor pano cairia a nódoa. As lesões no joelho direito encarregar-se-iam de esfumar o seu sonho. As mulheres que conquistou, e os milhões que averbou deram-lhe a estocada final. Reergueu-se mais do que uma vez mas nunca mais voltaria a ser aquele Ronaldo, o careca dos posters e dos vídeos que desconcertou o mundo. Seja por infortúnio, seja por deslumbramento, ou falta de objectivos, estou convicto que el gordo teria capacidades para reinar na elite dos melhores como número 1 durante anos a fio. O destino diriam os fatalistas, assim não o permitiu. Resta-lhe recuperar de novo infortúnio e tentar voltar a ser um terço do que já foi. Já seria o suficiente para nos vidrarmos ao pequeno ecrã.