Dilemas tácticos – 4-4-2 ou 4-3-3?

Abril 23, 2008

As opiniões de café dividem-se quando a conversa ganha rigidez táctica. Dizer-se que Barcelona, Manchester United ou Chelsea são antros sagrados de génios da bola é redutor. Por detrás da constelação de estrelas há um guia espiritual, um general ditador ou um democrata flexível. Mas mais do que vincar a sua personalidade no balneário, é imperativo exteriorizar a sua filosofia de jogo, dispor as “pedras” no tabuleiro de acordo com o seu pensamento e a sua concepção táctica. 

 

Aqui entramos num dossier complexo. Há treinadores que procuram moldar um plantel ao seu esquema táctico. São rígidos, cautelosos e avessos ao risco, sabem que têm boas hipóteses de triunfar seguindo os pressupostos que adquiriram desde o início da carreira e aos quais se mantiveram fieis. Por outro lado existem aqueles, normalmente mais jovens, dispostos a radiografar o plantel para lhe retirar os sintomas tácticos mais aconselháveis. Por vezes perdem-se na indecisão e os objectivos ficam para trás. Adiante.

 

No baú das tácticas latinas pontificam hoje o 4-4-2 e o 4-3-3.

Inúmeras equipas actuam em 4-4-2 por essa Europa fora. Em Portugal temos como exemplo o Benfica e o Sporting. Na Espanha o Real Madrid ou o Valência. Na Inglaterra o Manchester United ou o Arsenal. Todos actuam tendo como princípio de jogo a colocação de 4 homens na intermediária. Jogando com alas bem abertos ou num rebuscado losango, é evidente que são as dinâmicas de jogo adquiridas no treino que irão doutrinar as movimentações em campo, saber quem sobe e quem fica, quem compensa, quem aparece no espaço. Tudo “subcapítulos” de uma base universal, o 4-4-2.

 

De escudo em punho defendendo o sucesso do 4-3-3 temos o Porto de Jesualdo Ferreira. Barcelona, Chelsea ou Lyon também assentaram o seu sucesso recente neste pressuposto táctico. No 4-3-3 a ocupação de espaços é bem mais trivial. A própria disposição natural no terreno por parte dos jogadores ajuda a que os espaços defensivos e ofensivos de uma equipa estejam bem mais preenchidos, melhor arrumados diria. No fundo nesta variante táctica os mecanismos de jogo são a meu ver mais facilmente apreendidos, não necessitam de um profundo conhecimento táctico do jogo por parte do seu mentor. As tarefas em campo são mais facilmente absorvidas e a equipa conquista os seus equilíbrios precocemente.    

 

Ao invés, com 4 homens no centro da batalha, apesar da teórica superioridade numérica, a eventual indisciplina táctica dos seus alas ou a sua deficiente condição física deixam o duo de centro campistas reféns do adversário, e com dezenas de metros por palmilhar, partindo consequentemente a equipa ao meio. Por outro lado quando bem interpretado no plano ofensivo, a equipa estende-se a toda a largura do terreno, jogando mesmo assim apoiada, podendo ensaiar um cem número de situações de golo distintas.

Dilemas tácticos do século XXI.   

 

 

 


Conciliar Petit, Binya e Katsouranis

Novembro 25, 2007

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Com as recuperações físicas de Diogo Luiz e Petit e os consequentes regressos à equipa base do Benfica, novas interrogações se colocam no esquema táctico de Camacho. Diogo Luiz, depois de exibição segura frente à Académica, parece ter ganho um lugar ao lado de Luisão no eixo defensivo. Desta forma, Katsouranis volta ao seu habitat natural, surgindo como médio-centro no xadrez encarnado. Também Petit, após ganhar algum ritmo competitivo na última meia hora que jogou em Coimbra, deverá aparecer no meio-campo benfiquista, ocupando a vaga aberta por Binya (castigado pela UEFA com seis jogos), já no embate da próxima quarta-feira com o Milan.

Estando em boas condições físicas, Petit e Katsouranis têm lugar cativo no onze de Camacho. E Binya? O desconhecido camarônes tem vindo a emergir no futebol do Benfica, tornando-se no baluarte da luta no centro do terreno. Forte na recuperação de bola e na ocupação de espaços entre a linha defensiva e intermédia, dotado de um impressionante porte físico, Binya é a muralha vermelha. Poderá também ser apelidado de “rocha”, numa réplica do francês Desaily do Milan dos anos 90. Nos tempos que correm, Binya terá, talvez, em Obi Mikel do Chelsea a sua referência estilística. Falta-lhe melhorar a qualidade de passe – medíocre para um jogador com tantas outras potencialidades -, ganhar a acutilância necessária para fazer as transições defesa-ataque que se impõem à sua condição física e atentar ao timing de entrada ao adversário. Segurar a impetuosidade, sem deixar de ser ríspido.

Posto isto, como irá Camacho resolver este enigma, no clássico do próximo sábado contra o Porto? Será que Petit, Binya e Katsouranis cabem na mesma equipa? Talvez dependa do adversário. Se Binya não estivesse castigado pela UEFA, nada melhor que o poderoso Milan – equipa que expõe um meio-campo preenchido com quatro a cinco unidades – para o técnico espanhol ensaiar um meio-campo de combate,  pontificando o português, o camaronês e o grego, juntando-se a eles o registra Rui Costa. Formar-se-ia então um losango, onde Petit seria o vértice mais recuado, Binya e Katsou surgiriam como médios interiores, jogando Rui Costa como playmacker. Um meio-campo robusto para ombrear com o provável esquema táctico “árvore de natal” que Ancelotti deverá apresentar na Luz.  Pirlo e Ambrosini no duplo pivot, Gatuso e Seedorf como interiores, com Kaka a jogar solto, como “vagabundo”. Algo que Rodriguez poderia fazer na equipa do Benfica, surgindo em apoio directo ao ponta-de-lança Cardozo, aparecendo com frequência na “zona de tiro”. Isto, se Camacho tivesse o bom senso de não colocar Nuno Gomes a titular, muito menos como único avançado.

Petit, Katsouranis e Binya juntos no meio-campo poderiam ser a fórmula adequada para o Benfica encaixar no Milan, evitando a tão decisiva superioridade numérica na zona intermediária, onde muitas vezes se decidem os jogos. Sendo o campeão europeu pródigo nisso. Seria uma interessante batalha táctica e um belo teste para um novo desenho táctico.


Jorginho, o dilema táctico de Jorge Costa

Outubro 27, 2007

Jorge Costa terá em Jorginho uma solução?

O “quarto grande do futebol nacional” está cada vez mais personalizado, mais crescido, passando por um processo gradual de maturação. O Braga vai ganhando estofo a cada jogo que passa, apresentando-se à Europa do futebol como se já fosse cliente habitual destas andanças internacionais. No jogo de quinta-feira, os comandados de Jorge Costa entraram de peito feito no reduto do Bolton e mostraram uma qualidade de jogo bem superior aos ingleses. Faltou mais alguma coragem e, sobretudo, mais esclarecimento nos lances de ataque.

Houve serenidade defensiva, transmitida pelos centrais Paulo Jorge – muito bem no sentido de colocação – e Rodriguez, excelente a jogar na antecipação. Pressing alto e rápida recuperação de bola, por banda do trio do meio-campo – Andres Madrid, Catanheira e Vandinho – com o brasileiro também responsável pelas transições. Boa circulação de bola. Porém, faltou quem pensasse o jogo da turma bracarense. Os arcebispos estiveram orfãos de um estratega, de um médio criativo – organizador, de um elo que fizesse a ligação entre as linha intermediária e o ataque. Alguém que pudesse também funcionar como um segundo avançado, no apoio ao desamparado Linz. Pedir tudo isto a Vandinho está fora de questão.

Jorginho será o jogador que o Braga apresenta nas suas fileiras com as características mais indicadas para tais funções. Para se assumir como pensador de jogo, para definir com que linhas se cozem as ofensivas arsenalistas, para ser o patrão de jogo da equipa. Por esta razão, Jorge Costa não abdicou da sua presença no onze titular, mesmo tendo que o amarrar a uma ala. O técnico esperava de certo que o ex. portista pegasse de quando em vez na batuta do jogo, flectindo para o centro do terreno, sendo compensado na ala pelas subidas frequentes de João Pereira. Todavia, Jorginho raramente o fez. Com um jogo muito rendilhado, pouco esclarecido, perdeu-se frequentemente em lances de individualismo na ala direita ou na ala esquerda.

E se em vez de um 4-3-3 Jorge Costa tivesse apresentado diante do Bolton um “losango” (4-1-2-1-2) ou uma “árvore de natal” com apenas um trinco ou com um duplo-pivot (4-1-2-2-1 ou 4-2-2-1-1)? Alternativas tácticas que poderiam potenciar o papel de Jorginho enquanto organizador de jogo, colocando-o no seu verdadeiro habitat. Mas será que o jovem treinador contava com peças para estes puzzles? Vejamos o losango. A trinco, o vértice mais recuado, surgiria inevitavelmente Andrés Madrid, como médio interior direito apareceria Vandinho e a interior esquerdo estaria Castanheira – tem rotinas no lado esquedro do ataque, desde há muitos anos – , o playmacker seria então Jorginho, e como dupla de ataque, Linz e, porque não, Zé Manel? Rápido, explosivo, raçudo. Uma boa aposta para quebrar os rins dos sempre lentos defesas ingleses, como se veio a comprovar no lance do suposto penalty. A grande dúvida neste losango seria, eventualmente, a profundidade que Vandinho e Castanheira, este último já sem grande explosão, poderiam conferir ao jogo bracarense.

 Já o recurso a uma das duas variantes da “árvore de natal” – ilustremente executadas e exemplificadas pelo AC Milan – parece bem mais complicado. No 4-2-2-1-1 teria de se colocar um jogador ao lado de Andrés Madrid, o que poderia funcionar como embaraço táctico para o argentino, que veria o seu raio de acção muito mais reduzido, com eventuais problemas na ocupação dos espaços. Por sua vez, para jogar em 4-1-2-2-1, João Pinto – a braços com um processo disciplinar – seria o único com caraterísticas para fazer uma dupla de organizadores com Jorginho.

 


O “trinco” nas variantes tácticas

Outubro 18, 2007

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“Trinco”. A denominação pode ter vindo a cair em desuso, porém continua a ser aquela que melhor define o jogador que ocupa o espaço entre o sector defensivo e a linha intermédia. O vértice mais recuado do meio-campo e o pronto-socorro dos centrais. Pode ser apenas um, mas também podem ser dois. Capello ou Ancelotti são defensores de dois trincos, considerando-os de peças fulcrais para a composição de um mais renovado catennacio

Capello ensaiou um duplo-pivot no Real Madrid, recorrendo à dupla Diarra-Emerson. Ancelotti, no Milan campeão europeu, usa frequentemente, na sua táctica “árvore de natal” (4-2-2-1-1), uma dupla de “trincos”, Pirlo-Ambrosini.

Outros treinadores gostam de usar um único “trinco” bem definido no terreno – o tal vértice mais recuado do meio-campo –, usando um sistema de 4-1-2-3, assim fazem, por exemplo, Scolari e Jesualdo. Veloso na Selecção e Assunção no Porto são as peças. O mesmo fizera Mourinho, com Costinha, no Porto, e, com Makelele, no Chelsea. 

Depois, há ainda o “trinco” no badalado “losango” ou 4-1-2-1-2. Paulo Bento, com Miguel Veloso, no Sporting; ou Klinsmann, com Torsten Frings, na Alemanha do Mundial 2006 – Schneider, Schweinsteiger e Ballack completavam o quarteto –, são exemplos.