Felipe – Manual de desperdício de um dom

Maio 16, 2008

Há coisas que não entendo no futebol. Medito em busca de uma resposta para o insucesso da carreira de um jogador, com talento a escorrer por todos os poros do corpo, e nem sempre encontro a solução. Para quase todos há uma razão. Falta de profissionalismo, má gestão na hora de escolher o seu futuro, indisciplina, todas elas emergem como respostas óbvias. Para o brasileiro Felipe, não sei ao certo qual será a mais indicada. De qualquer das maneiras, ver este jogador passar ao lado de uma carreira europeia é das maiores lacunas da última década, no futebol do velho continente.

A maior parte dos comuns apreciadores de futebol, desconhecem os talentos que nascem na América do Sul, pelo menos enquanto se limitam a jogar por lá. É comum ouvir-se hoje que o brasileiro “x” ou o argentino “y”, que jogam no Calcio ou na PremierShip, são verdadeiros astros. Passaram para “o lado de cá” e como tal, merecem obter o certificado de qualidade dos relvados europeus. Ora com Felipe a historia foi outra.

Corriam os últimos anos da década de 90 e o Vasco da Gama tinha nas suas fileiras uma das melhores equipas que os meus olhos viram jogar. Futebol de ataque, criativo e rápido, ao nível das melhores equipas da Europa (como se veio a registar no Mundial de Clubes). Na lateral esquerda jogava um predestinado, o tal Felipe. Camisola 6 nas costas e uma compilação, plena de truques e fintas nos pés. “O” verdadeiro malabarista. A sua capacidade técnica era de tal ordem sobrenatural, que muitas equipas contrárias tinham indicações rígidas para que toda a ala direita marcasse o pequeno génio do Vasco. Nunca assistira a tamanha preocupação com o deslizar de Felipe em campo, afinal de contas era apenas um lateral esquerdo. Porém a multidão estava avisada. Descomplexado, Felipe arrancava para a glória impulsionado pela torcida. Um, dois, três…meia equipa para trás e Felipe na “cara do golo”. A metáfora do futebol desregrado carioca imbuída num par de chuteiras. A apoteose gerada em torno de si criou uma onde de protestos por todo o Brasil, reclamando a sua presença na selecção “canarinha”, no lugar de…Roberto Carlos, imagine-se. Nas épocas seguintes Felipe foi deslocado para o centro do terreno, (tal como tanto reclamara), pensando o jogo do colectivo, segurando a partida pelas suas rédeas. Não fazia sentido ter tanto potencial técnico amarrado lá atrás, dobrando os centrais ou subindo pelo flanco com cautela. Não era para Felipe esse papel, era contra natura.

No auge da sua carreira e em vias de se transferir para a Roma (como meio mundo já o esperava), Felipe vê as negociações complicarem-se, tendo o caso acabado na justiça. A porta da Europa fechara-se. Pensei que fosse apenas uma negociação falhada, e que mais cedo ou mais tarde Felipe teria a oportunidade de exibir o seu futebol na Europa. No entretanto jogou no Atlético de Mineiro e no Palmeiras. O tempo passou e esse dia não chegou. O melhor que conseguiu foi forçar uma transferência imprudente para o Galatasaray. Poucos meses depois, regressou inadaptado e carente do calor do Rio de Janeiro. Militou no Flamengo e depois no Fluminense. Em 2005 saiu para o Quatar atrás do oásis financeiro e por lá ficou. Aos 30 anos duvido que ainda vá a tempo de passear a sua arte pela Europa. Foi reprovado ou reprovou a dureza do “nosso” futebol. É o que me resta descodificar. De resto, posso afirmar que fui um predestinado também. Fui dos poucos europeus que viu Felipe jogar e o que vi foi do melhor que o desporto rei tem para dar. Emoção refinada, estética pitoresca. Dos melhores executantes desta arte. Ainda hoje, das poucas camisolas que tenho, uma delas é a de Felipe, a camisola do centenário Vascaíno.

Helton, Romário, Edmundo, Viola, Amaral, Juninho Pernambucano, Juninho Paulista ou Zé Maria, seus colegas naquela extenuante equipa do Vasco que o digam. Perdeu-se um entertainer nesta Europa táctica e rezingona. 

     

 


Roger, talento e temperamento

Outubro 31, 2007

Roger o maradoninha brasileiro

Roger, o “maradoninha” como carinhosamente era apelidado pela “torcida” do Fluminense, equipa que o exibiu pela primeira vez ao mundo do futebol, foi (e ainda hoje é) um dos maiores desperdícios que alguma vez o desporto rei registou.

Vi evoluir por esses relvados fora, na última quinzena de anos, alguns dos melhores executantes de sempre, jogadores que faziam da bola a sua confidente, tratando-a com afecto inesgotável, ligados por “laços de sangue”. Roger era um bom exemplo. Ele e a bola eram um só. Uma aliança inquebrável. Um pacto de não agressão constante. Ele protegia-a, ela oferecia-lhe o mundo. E Roger alcançou o céu, mesmo que por momentos.

Técnica dos pés à cabeça, futebol de rua personalizado pelo seu pé esquerdo miraculoso. Roger move-se em campo com a certeza de ter areia por debaixo dos pés. Brinca e brincava sobre ela constantemente, para azia dos seus treinadores, para delírio e êxtase da bancada. O íman que trazia junto à bota nunca foi encontrado, escondia-se e beijava a “redonda” cada vez que se tocavam. Magia pura em campo. Não penso duas vezes se tivesse de eleger os maiores artistas da bola. Artistas e não jogadores competitivos ao mais alto nível. Essa faceta é para os que encaram o futebol como uma profissão séria. Isso não era ele, não nasceu para correr e para trabalhar como os outros, terá pensado. Trocou tudo para se dedicar a aperfeiçoar o seu estreito relacionamento com a bola e não com o jogo, muito menos com os colegas. Tudo pela beleza do espectáculo. Tudo por mais um drible, mais um defesa “desmontado”, mais um remate fulminante. Tudo por amor à sua mais que tudo, aquela que o ajudou a chegar à Europa e provavelmente aquela que o cegou ao ponto de não ter evoluído os seus índices físicos, temperamentais e de entrega em campo. A bola numa atitude egoísta retirou-lhe o discernimento e uma carreira ficou para trás.

Hoje seriam poucos os magos do futebol que lhe poderiam ensinar algo mais. Mas Roger tomou a sua decisão. Sentenciou o seu trajecto futebolístico. Trocou as exigências incontornáveis do futebol europeu por mais um drible, mais um “nó cego”, mais um improviso, mais uma partida de futevolei na cidade maravilhosa. O pequeno génio tem hoje 30 anos e ajuda pontualmente o Flamengo, seu clube actual a conquistar (também pontualmente) os 3 pontos. Pelo meio muitas discórdias com os seus treinadores, com a direcção e com os aficionados do clube com mais adeptos no mundo. E tudo porque Roger morrerá sem se entregar ao jogo. Apenas e só…à bola. 

    

   


Hugo Leal, e tudo o tempo levou

Outubro 19, 2007

  

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HUGO Miguel Ribeiro LEAL, o miúdo que há onze anos fez cair o recorde de Chalana, ao estrear-se com a camisola do Sport Lisboa e Benfica com apenas 16 anos, imagine-se. Corriam tempos difíceis na Luz, que de inferno para os adversários tinha muito pouco. Lançado às feras, Leal rapidamente se assumiu como o mais recente prodígio das escolas encarnadas, que a ritmo “pastoso” lá ia lançando de quando em vez um ou outro jovem carregado de sonhos e também de obstáculos.

O jovem organizador de jogo da Luz, franzino, tímido na personalidade mas destemido no relvado, paulatinamente impôs o seu futebol, criativo, vistoso, seguro no transporte de bola, assumindo as despesas de jogo às suas custas, num tabuleiro encarnado, com muitos “peões”, algumas “torres” mas seguramente carente de “duques” que elitizassem o seu futebol. Hugo Leal cresceu, notabilizou-se e em poucos meses o banco de suplentes tornou-se demasiado pequeno para o seu futebol. Saltou para a equipa principal com a regularidade de um indiscutível.

As boas exibições e as assistências para golo trouxeram-lhe a fama precoce, um vírus “mortal” que ainda hoje extermina carreiras promissoras. Num ápice, e à revelia da sua entidade patronal assina pelo Atlético Madrid e muda-se para a capital espanhola consciente do corte afectivo que fizera com as águias. De presença garantida no Vicente Calderón a lugar marcado no banco de suplentes, Leal invertera o seu papel. Assina pelo Paris Saint Germain sem glória que lhe valesse. As intermitências entre magistrais exibições e performances eclipsadas, porventura devido ao infortúnio de constantes lesões (que ainda hoje o perseguem) retiraram-lhe toda a credibilidade de um início fulgurante. E nem o F.C.Porto, especialista em recuperar atletas para a alta-roda do futebol, conseguiu diagnosticar o problema de tão inusitado apagão. Segue-se passagem pela Académica, com o desfecho esperado. Nova oportunidade de ouro no Sporting de Braga, o clube de dimensão ideal para Leal relançar o seu futebol de topo de outrora, porém… tudo o tempo levou.

Hoje vagueia no Belenenses de lesão em lesão, novamente sem se conseguir impor. Mas com uma diferença. Já não há grande margem de manobra. O companheiro de vida de Simão Sabrosa nas camadas jovens da selecção nacional, não soube ministrar e perseguir as pisadas do extremo colchonero. Hoje, volvidos mais de 10 anos, já não há muita volta a dar. O caminho de ambos divergiu. Perdeu-se um “pensador” de jogo. Perdeu-se muito provavelmente uma carreira de ouro.