‘Estilo Queiroz’ assenta na ruptura com ‘era Scolari’

Novembro 17, 2008

queiroz

 

Quando um treinador chega a um determinado clube ou selecção para substituir um antecessor com mais de cinco anos ininterruptos de casa, terá obrigatoriamente de trazer e impor um estilo próprio, que rompa com as ideias anteriores. Carlos Queiroz, conhecedor do cunho de Luiz Felipe Scolari na cultura da selecção nacional, rápido se apressou em mostrar que o tempo era de ruptura com as escolhas, hábitos, tiques e feitios do brasileiro.

Queiroz começou por mexer na faceta mais mediática de uma qualquer selecção nacional: a escolha dos jogadores, nas sempre esperadas e contestadas convocatórias. Logo na nomeação dos intérpretes para o particular com as Ilhas Feroé, o professor livrou-se do ‘fardo’ Ricardo e ‘esqueceu-se’ do intocável Petit. Por outro lado, chamou o guardião Eduardo – jogador que Scolari prescindiu no Europeu apenas por uma questão de sobranceria perante a ténue pressão dos media -, lembrou-se de Antunes,  Duda, Manuel Fernandes e Danny – este último Scolari não deveria  conhecer, pois replicou sistematicamente que Portugal não tinha substituto para Deco, apresentando-se, desta forma, com um único playmaker no Euro 2008.

Segurar Paulo Ferreira, enquanto afasta Nuno Gomes

Com esta primeira convocatória, Queiroz afastou pesos-pesados do ‘sargentão’ e, ao mesmo tempo, trouxe sangue novo à equipa das quinas, passando a mensagem de ser um ‘promotor’ nato da cultura de mérito: independentemente do nome, quem joga e fá-lo bem no seu clube pode ser chamado. Claro que há excepções, a mais incompreensível é a opção sistemática em Paulo Ferreira para defesa-esquerdo, após os dissabores do último Campeonato da Europa. Mas será o lateral do Chelsea um escudo que Queiroz terá para se defender da acusação de ruptura com a ‘era Scolari’, caso a campanha para África do Sul não seja bem sucedida? Muito provavelmente.  Até porque para aquela posição ainda não surge um nome unanimemente aclamado por media e adeptos.  

E, enquanto segura Paulo Ferreira, ganha espaço para se livrar de outra referência do íntimo grupo ‘scolarista’: Nuno Gomes. A convocatória para o Brasil parece-me um indício forte de que o benfiquista só voltará à selecção em caso de enorme penúria de outros avançados. O problema é que, aqui,  Queiroz não tem abundantes opções. Além de Almeida, sobra Postiga (outro ‘menino’ de Scolari), isto se o professor se guiar pela cultura de mérito, pelo desempenho nos respectivos clubes. Djaló, Makukula e Vaz Tê pouco ou nada jogam nas suas equipas. Sempre poderá ser audacioso e trazer Edinho, do AEK. Aguardemos. Outra opção para descartar Nuno Gomes, seria, claro, convocar o naturalizado Liedson. Não acredito. Se o fizesse deitava por água abaixo o seu estilo de ruptura scolariana.

Contornar em vez de afrontar os media

Mas, para lá das escolhas dos jogadores, Queiroz tem-se demarcado do actual técnico do Chelsea em várias acções do quotidiano de um seleccionador. Além das benéficas idas aos jogos, sentando-se cordialmente ao lado de Pinto da Costa ou Luis Filipe Vieira (para breve estará marcado um lugar ao lado de Soares Franco), Queiroz tem sabido gerir bem a comunicação. Acabou com as conferências de imprensa aquando da convocatória, remetendo para o site da FPF os nomes dos eleitos, bem como, ultimamente, imagens, também da FPF, que documentam justificações da escolha de um ou outro jogador. Se estivesse no papel do jornalista desportivo, acharia absurda esta opção. Enquanto assessor de comunicação, vejo como inteligente esta atitude de tentar diminuir ao máximo o burburinho logo após as convocatórias. Para compensar os media e os adeptos, Queiroz alargou os momentos de comunicação, de jogadores e técnicos, durante cada operação da equipa nacional. Muito bem. É nessa altura que mais interessa ouvir e debater o tema selecção.


Scolari e a tábua de salvação

Novembro 17, 2007

A selecção nacional joga hoje uma cartada decisiva rumo ao Euro 2008, pelo que, a margem de erro para Scolari é diminuta, para não dizer, inexistente. O técnico brasileiro – à frente da equipa das quinas desde Fevereiro de 2003 – tem no embate de hoje, com a Arménia, o momento mais importante e decisivo da sua carreira, de mais de quatro anos, em Portugal. Scolari está pura e simplesmente “encostado às cordas” como nunca estivera até então. As responsabilidades são enormes, maiores do que na final do Euro 2004 ou na meia-final do Mundial 2006. Por uma simples razão. Hoje, Portugal de ganhar, restando-lhe impor a lei natural do mais forte.

Scolari no tudo ou nada

Se é verdade que Scolari pode engrandecer-se por constar como o treinador que detém o melhor registo à frente da selecção, não será menos verdade que em caso de fracasso nesta dupla jornada – hoje frente à Arménia e quarta-feira diante da Finlândia – o brasileiro despedir-se-ia de Portugal pela porta pequena, dando voz aos seus mais fiéis críticos e àqueles que vem emergindo dia após dia.

O ciclo Scolari passa neste momento pela sua curva mais descendente. Ele próprio sabe disso. Tendo perfeita consciência da sua queda na aceitação pública, o “sargentão” deixou de lado o seu habitual marketing populista, sempre presente nos momentos decisivos da selecção nacional. A falange de apoio ao ritual do brasileiro é, deveras, bem menos significativa do que por altura do Euro 2004 ou do Mundial 2006. Scolari prefere esperar para ver. E se tudo correr da melhor forma, de acordo com a normalidade, o técnico poderá, enfim, respirar, já na próxima querta-feira.

Scolari sente tanto o peso da responsabilidade, para estes dois derradeiros confrontos, que irá apresentar um sistema de jogo bem mais arrojado do que o habitual. Hoje fará a equipa alinhar num claro e bem definido 4-2-3-1. Simão fará de Deco. Aqui reside a nuance no figurino táctico. O jogador do Atlético Madrid surgirá em zonas mais avançadas do terreno do que normalmente acontece com o luso-brasileiro. Simão jogará nas costas do ponta-de-lança Hugo Almeida, alternando entre o centro e as faixas com Quaresma e Ronaldo. Perde-se em rigor táctico, recuperação de bola – apoio aos jogadores do miolo, Veloso e Maniche -, organização de jogo. Ganha-se em velocidade, rapidez de processos, mobilidade, flanqueamento de jogo.

A tábua de salvação para Luiz Filipe Scolari começa já hoje.

 


Veloso, geometricamente jogando

Outubro 14, 2007

Com Miguel Veloso chega ao futebol português um novo conceito.  O futebol geométrico teorizado por Paulo Sousa, Redondo, Guardiola ou Andrea Pirlo.

Veloso começa a ter o mundo a seus pés

No passado sábado no jogo que opôs a Selecção portuguesa à formação do Azerbaijão, e que culminou com uma vitória relativamente pacífica por parte dos “patrícios”, certamente, não lhe terá passado despercebida a fantástica exibição de Miguel Veloso.

Como está maduro o jovem “leão”. Ocupando o vértice mais recuado do triângulo do meio campo, servindo desse modo de bengala para a subida dos laterais (que em abono da verdade nem se registaram com a frequência necessária)   actuando como autêntico escuteiro no centro do terreno, roubando o ouro ao bandido, entregando-o de imediato ora curto,  nas linhas mais próximas, ora longo com régua e esquadro definindo com elegância os flanqueamentos por parte de Cristiano Ronaldo e Ricardo Quaresma. 

Veloso tem aritmética nos pés. Com ele o futebol é sinónimo de números. De exactidão, de ciência. A calma estonteante com que aborda cada transposição defesa-ataque, quebrando o ritmo quando é necessário, mexendo na intensidade de jogo, ocupando o relvado de área a área, jogando sempre apoiado, deixando as fintas e os bailados para outros artistas, faz dele hoje, um caso sério de exportação do futebol português. E digo mais. Tivesse ele outra capacidade física, outra explosão para chegar como uma flecha ao último reduto contrário, quer tabelando, quer aparecendo à entrada da área para finalizar, e certamente neste momento já seria mais um ilustre “estrangeiro” na armada portuguesa.

No futebol actual  o espaço para o trinco clássico tende a desaparecer em virtude da necessidade de se potencializar as capacidades dos centro-campistas, libertando posições no terreno. E Veloso, embora não sendo um trinco clássico, longe disso, ainda não tem verticalidade suficiente no seu jogo (fruto de uma condição física pouco abonatória),  para se assumir como um “box to box”, um médio moderno e irreverente sem perder a geometria e a racionalidade de jogo que já  caracterizam o seu futebol. Arrisco-me a dizer que uma estadia na Premier League é remédio santo para todos os males.  


Ronaldo e Quaresma sem estratégia na batalha “Baku”

Outubro 13, 2007

Miguel permitiu a Hugo Almeida fazer aquilo que deveria ser proporcionado pelos alas Quaresma e Ronaldo

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Sempre que surge a possibilidade de Cristiano Ronaldo e Ricardo Quaresma figurarem no mesmo onze, a expectativa é deveras enorme. Anseia-se pelo mais refinado recital de futebol e só a Selecção Nacional pode, neste momento, proporcionar tal êxtase.  

A lesão de Simão, antes da partida de Portugal no sábado passado, “obrigou” Scolari a fazer alinhar na equipa titular os dois diamantes lapidados, mas com arestas ainda a limar, no que respeita ao sentido de jogo colectivo e à solidariedade de que todas as equipas necessitam. Ronaldo e Quaresma não foram os soldados que o exército do “sargentão” Scolari necessitava. Sujaram as fardas, é uma verdade. Lutaram, guerrearam, mas não em prole da companhia. Não é menos verdade, que, se a sorte tivesse acompanhado os dois diamantes, Portugal teria saído de Baku com uma vitória robusta.

Porém, na falta de sorte, deveria recorrer-se a uma estratégia. Não há exército que funcione sem estratégia. Ronaldo e Quaresma só tinham de preparar os mísseis para o canhão – Hugo Almeida. A referência na área, alguém sedento de selar com golos a sua primeira presença como titular na Selecção AA.

Da primeira vez que foi servido, Hugo Almeida não se fez rogado, assinando um golo de bela execução, como diria o saudoso Gabriel Alves “um golo à ponta-de-lança”. Miguel permitiu a Hugo Almeida fazer aquilo que deveria ser proporcionado pelos alas Quaresma e Ronaldo. Um golo fulcral para o desfecho da contenda.

Como poderia ser diferente o placard final do jogo, se Ronaldo e Quaresma encetassem mais vezes a simples estratégia de preparar os mísseis para o canhão.