Pablo Aimar – O vendedor de sonhos

Julho 18, 2008

Pablo César Aimar, 28 anos. Um vendedor de sonhos aterra no seio do universo benfiquista. “El payaso” (alcunha baptizada por um jornalista argentino pela forma como na altura, o míudo Aimar com apenas 17 anos já evidenciava os seus dotes de predestinado na equipa do River ) desembarca em Lisboa com a esperança legítima de voltar a colar á relva o futebol que o celebrizou na América do Sul, e o confirmou nos primeiros anos de Espanha (no Valência de Rafa Benitez) como um dos mais finos executantes do cenário mundial. Esperança legítima detem também o aficionado encarnado no mágico argentino. Dele espera sede de vitória. Nele quer ver emergir a tenacidade de um pibe que tem de dar tudo o que tem pela causa, reconfortando a alma ao exigente “terceiro anel”, pintando o retrato com flashes relampejantes de arte. Para isso nada mais simples do que encontrar em Aimar, o Adn futebolístico que o lançou para a luz da ribalta. É o que se pede. O futebol português agradece com mais gente na bancada. E mais talentos como Aimar viessem ao nosso encontro. Mesmo que por vezes em condições físicas complexas, mesmo sem a chama enérgica dos primeiros dias de carreira. São craques de berço se me permitem que o diga. Nasceram para jogar bom futebol porque não o sabem fazer de outra forma. Recepcionam, transitam, driblam e giram, adornam e voltam a partir para cima. Param e descongestionam. “Matam” no peito e adormecem o jogo ao seu ritmo. Colocam o esférico com capricho longe dos olhos do guardião do templo. São traços gerais transversais a todos os descomplexados magos da bola. Transversais a Aimar, a Riquelme ou a Saviola em particular. O trio das pampas que emigrou para a Europa com o carimbo de Maradona na etiqueta das camisolas. Não fizeram da regularidade exibicional o seu prato forte. Não deram tudo o que tinham. Acomodaram-se e perderam-se um pouco no tempo. Mas qualquer um deles transpira classe e qualquer um deles traria armas fortíssimas para (ajudar) a desempenar a engrenagem ferrugenta da nossa liga.

 

Deixemos Aimar entrar em campo e montar nos últimos 30 metros um autêntico quiosque de sonhos, para gáudio de quem venera pacificamente o futebol. E esperemos que o defeso reserve mais qualidade extra á nossa liga.


Iniesta – Relacionar-se com o jogo e não com o golo

Junho 30, 2008

Gostei de ver Iniesta neste Euro 2008. Sou um fiel admirador das características deste box to box espanhol. Porém ao serviço da selecção, raramente conseguiu impor a sociedade que ratificou há já algum tempo com Xavi em Barcelona. Faltou-lhe sempre um vértice mais recuado no meio campo, capaz de perceber as suas movimentações verticais no terreno, capaz de ser o primeiro a recuperar mas também o primeiro a construir, libertando Iniesta de espaços demasiado recuados e impróprios para o seu talento.

 

Nesta revitalizada Espanha, surge um novo peão em campo que desamarra o prodígio catalão para o jogo. A chegada ao onze de Marcos Senna, veio trazer a confiança que Iniesta precisava para segurar o jogo da equipa. Com as costas serenamente resguardadas, Iniesta como poucos, define os tempos de jogo. Cabeça bem levantada, visão periférica. Um olho nas movimentações paralelas de Xavi e outro na referencia do ataque, “el niño” Torres. Pelo meio vai jogando e fazendo jogar. Em três tempos faz a transição. Defensivamente surge num ápice a ocupar o seu reduto. Ofensivamente tira partido da excelente circulação de bola que consegue gerar. É rápido e surge em zona de finalização com muita facilidade. É talvez este o aspecto de jogo que tenha de rever. A sua obsessão por se relacionar com o jogo e não com o golo faz com que perca algumas ocasiões flagrantes para marcar. Na cara do guarda-redes, Iniesta ainda teima em sacudir a responsabilidade do seu capote. Treme na finalização e opta por entregar o destino da bola ao colega mais próximo. Na final contra a rival Alemanha, Iniesta por mais que uma vez, esteve cara a cara com Lehmann. Retirou a pressão de si próprio e procurou um apoio directo para definir o remate letal. São lacunas evidentes no seu jogo mas que de certa forma não assombram outros atributos impares que possui. Nos últimos 30 metros e rodeado por três, quatro adversários, Iniesta tem o dom de desconcertar o momento. Fabrica uma fenda na muralha que o cerca e adorna um passe “redondo” que rasga a ultima linha contrária, isolando qualquer avançado móvel deste planeta. Foi assim na cavalgada do “Barça” rumo á conquista da Champions de 2005-06, e foi assim este ano no Campeonato da Europa.

 

Momentos mágicos protagonizados por quem se relaciona freneticamente com o jogo e nunca com o golo.

 


Onde pára a squadra azzurra?

Junho 12, 2008

Sofrível. Confrangedora.  Irreconhecível. Adjectivos que definem a estreia da Itália no Euro 2008. Quereria Donadoni repetir a receita que a squadra azzurra utilizara perante uma outra Holanda - igualmente estética, mas menos pragmática - na meia-final do Euro 2000, onde os transalpinos resguardaram-se no último terço do terreno, jogando meramente no erro do adversário? Nesse embate,  os actuais campeões do mundo acabaram por ganhar nas grandes penalidades. Aqui não havia penaltys, mas talvez o empate até não fosse mau de digerir para Buffon, Pirlo, Toni & Companhia.

Quando pensamos na squadra azzurra, vem-nos imediatamente à cabeça a ideia de um forte revestido de uma densa muralha formada de peões azuis. Baresi, Madini, Canavarro, Panucci, Nesta, Pessotto, Zambrotta na linha defensiva; Albertini, Dino Baggio, Christian Zanetti, Di Biaggio, Pirlo, Gattuso, Ambrosini, Perrotta na intermediária. Todos eles referências e intérpretes na perfeição do tão proclamado e contestado cattenaccio. Roberto Baggio, Totti ou Del Piero davam a porção mágica; Singori, Vieri ou Inzaghi faziam chegar o gélido veneno às balizas contrárias. Mas onde pára a squadra azzurra?

Panucci, Zambrotta, Pirlo, Ambrosini, Gattuso e Del Piero - este apenas na parte final da batalha - lá estiveram, na passada segunda-feira, vergados à humilhação imposta pela renovada ‘laranja mecânica’. Tristes, apáticos e carregados de um cattenaccio demasiado pesado de transportar como estigma. Perfeitamente sabedores e conscientes de que a famosa estratégia não se faz sem artistas de porção mágica, Pirlo e os outros foram esperando que o velho e o recente passado pairassem por um qualquer miraculoso instante. Mas sem Baggio, Totti ou o Del Piero, os holandeses apenas apressaram o tempo. Numa equipa titular com apenas três jogadores de cariz ofensivo - não que isso fosse algo de novo nas selecções italianas -, onde estava o artista? Di Natale? Não é, nem será, certamente, ele que terá a varinha de condão. Camoranesi? Decididamente, não. E Toni? A esse pede-se-lhe que liberte o veneno. Mas, ainda assim, quem não tem saudades do ‘letal’ Inzaghi ou do possante Vieri?

Artista? Só Pirlo. Mas o pivot milanês, preso a marcações, raras as vezes conseguiu chegar às imediações da área contrária para executar, como ele sabe na perfeição, o último passe - à semelhança daquele ‘toque’ de Iniesta para o segundo golo da Espanha e de Villa na vitória de nuestros hermanos contra a Rússia.

O que fazer então? Restará a Donadoni resgatar o ‘veterano’ Del Piero para o onze inicial, em detrimento do inconsistente Camoranesi. Juntar o criativo da vecchia signora a Di Natale, a fim de dar apoio, nas costas, ao desamparado Toni. E com a saída de Camoranesi, exigir aos laterais que subam mais e criem desequilíbrios no meio-campo adversário. De um lado Zambrotta, do outro Grosso. Pannuci já não pertence a este forte.

Sem os míticos Cannavarro e Nesta, caberá, inevitavelmente, ao malfadado Matterazi liderar a defensiva, claro está, com a voz de comando e a presença intimidadora de Buffon atrás. 

Devolvam Del Piero à squadra. Ele tem a porção mágica. 

 

 


Dário Conca – Um ultra-leve ao serviço do colectivo

Junho 6, 2008

Dário Conca, 25 anos, 1.67cm e cerca de 60kg. Um ultra-leve argentino a voar pelas alas do meio campo do Fluminense. Oriundo do River Plate, Conca chegou ao brasileirão pelas portas do Vasco da Gama, mas só agora no “Flu”, plenamente adaptado, vai justificando o porquê da sua contratação. Dotado de excelente técnica e sentido de jogo colectivo, o baixinho tricolor arrasa a oposição com arrancadas poderosíssimas que fulminam qualquer tentativa de perseguição. Fisicamente é bastante frágil necessitando por isso de melhorar o seu fraco poder de choque, uma vez que perde fulgor quando é obrigado a disputar um lance dividido. Contudo, para lá da rapidez de execução que possui, Dário Conca é um especialista em lances de bola parada. Um caso a seguir com atenção não só no campeonato brasileiro, mas essencialmente na Libertadores, onde foi peça fulcral na caminhada até á final da competição.